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Questão FC545052

Não sabia o número de ninguém, não tinha acesso ao Whats, não podia sequer ver as horas nem verificar o e-mail. Para quem ligar para tentar resolver o perrengue?

Interpretação de Textos (Compreensão)

FUNDATEC · 2025

A terceirização da memória

 

Por Juliana Bublitz

 

Você tem um minuto para responder, sem espiar no celular (não vale trapacear): quantos números de telefone sabe de cor? Dois, três? Ou nem isso?

 

Até hoje lembro de dígitos da era pré-internet. O contato de casa era 711-3777. O da minha avó, 713-2641. Recordo do som do disco do aparelho girando, levado pelo dedo indicador, e de tagarelar com as amigas de infância, cujos telefones fixos jamais esqueci. Nenhum desses números existe mais, mas seguem guardados como tesouros arqueológicos inúteis.

 

Naquela época, a gente memorizava tudo. No máximo, consultava uma agenda de papel aos frangalhos, do tamanho da palma da mão, que ficava na mesinha da sala.

 

Aí veio a revolução digital, com Apple, Microsoft e todas as bigtechs. Surgiram o Motorola tijolão, o Nokia tijolinho e o Blackberry com suas teclas mínimas. Em menos de 20 anos, com a chegada dos smartphones e de suas funcionalidades sem fim, as marcas passaram a ser extensões do nosso corpo. Os dispositivos servem até para telefonar, só que hoje ninguém mais precisa disso. Falar para quê ?

 

A tecnologia mudou o mundo e a forma como nos relacionamos com ele. Tudo ficou mais fácil. Deixou de ser necessário guardar informações “na caixola”, como diria minha avó (aquela mesma, do 713-2641), e passou a ser possível terceirizar a memória. Ganhamos HDs externos.

 

Qual é o sentido de perder tempo memorizando algo, se temos tudo na palma da mão?

 

Hoje, a vida de uma pessoa cabe no celular. A agenda de telefones é só uma gota no oceano de bites.

 

Os contatos estão ali, assim como a conta do banco, a lista do super, o endereço do dentista, a tese de doutorado, as datas de aniversário das pessoas que amamos, o roteiro das férias, o aplicativo de rotas com GPS, os ingressos para o teatro. O que não sabemos (ou esquecemos?) está no Google ou no ChatGPT. Basta digitar e pronto. Resolvido em segundos.

 

O resultado disso é uma vida muito mais prática, mas um bando de gente sequestrada pelo próprio celular, como já escreveu a Martha Medeiros em uma de suas crônicas geniais.

 

Viramos “celular-dependentes”, e a nossa memória também.

 

Dia desses, consegui a façanha de esquecer o aparelho em um veículo da Uber. Percebi segundos depois, quando fui checar as mensagens e quase enlouqueci de mãos vazias. Bateu o desespero. E agora?

 

Não sabia o número de ninguém, não tinha acesso ao Whats, não podia sequer ver as horas nem verificar o e-mail. Para quem ligar para tentar resolver o perrengue?

 

Graças a uma colega que (ufa!) não tinha esquecido o celular no carro, foi possível fazer contato com a empresa e chegar até o motorista. Ele voltou mais tarde para devolver o item perdido.

 

Foram os 45 minutos mais agonizantes dos últimos tempos. E ali percebi meu vício em tecnologia. Sem o smartphone, a vida travou, e a terceirização da memória se tornou um problemão.

 

Virou amnésia digital.

 

Sabe o que fiz depois disso? Nada. Ou melhor, fiz, sim: decorei três contatos de pessoas próximas para o caso de emergências. Estou salva. Até ser traída pela memória outra vez.

 

(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/juliana-bublitz/

ultimas-noticias/ – texto adaptado especialmente para esta prova).

 

Relacione a Coluna 1 à Coluna 2, associando as informações mencionadas no texto aos respectivos parágrafos em que aparecem.

 

Coluna 1

 

1. Primeiro parágrafo.

 

2. Segundo parágrafo.

 

3. Sexto parágrafo.

 

4. Nono parágrafo.

 

Coluna 2

 

(  ) Constatação de que os celulares armazenam toda a vida de uma pessoa, com a agenda de telefones sendo apenas uma pequena parte do seu vasto volume de dados.

 

(  ) Recordação de números de telefone da era pré-internet, os quais agora são obsoletos, mas permanecem na memória da escritora como relíquias sentimentais de um tempo passado.

 

(  ) Leitor é desafiado a responder um questionamento sobre a dificuldade moderna de memorizar números de telefone.

 

(  ) Menção ao dia em que a escritora esqueceu seu celular em um carro.

 

A ordem correta de preenchimento dos parênteses, de cima para baixo, é:

  1. 3 – 2 – 1 – 4.
  2. 2 – 4 – 3 – 1.
  3. 4 – 1 – 2 – 3.
  4. 3 – 1 – 4 – 2.
  5. 4 – 3 – 1 – 2.
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Gabarito

A

Comentário do professor

A sequência 3–2–1–4 associa cada descrição ao parágrafo em que aparece no texto.

O item sobre a constatação de que os celulares armazenam toda a vida da pessoa corresponde ao item 3 (sexto parágrafo), pois ali a autora questiona “Qual é o sentido de perder tempo memorizando algo, se temos tudo na palma da mão?” e afirma que “a vida de uma pessoa cabe no celular”.

A recordação de números da era pré-internet refere‑se ao item 2 (segundo parágrafo), onde ela rememora explicitamente dígitos como “711-3777” e “713-2641”.

O desafio ao leitor aparece no item 1 (primeiro parágrafo), com a pergunta direta “Você tem um minuto para responder... quantos números de telefone sabe de cor?”

A menção ao episódio de ter esquecido o celular em um carro corresponde ao item 4 (nono parágrafo), que narra o momento em que ela deixa o aparelho em um veículo da Uber e descreve o desespero subsequente.

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