Questão FC545111
O texto III deve ser lido para se responder a questão. Texto III A ilusão do fim de semana Há algo errado nisto. Onde havia florestas construímos cidades de concreto, asfalto e vid
Interpretação de Textos (Compreensão)
CPCON UEPB · 2025
O texto III deve ser lido para se responder a questão.
Texto III
A ilusão do fim de semana
Há algo errado nisto.
Onde havia florestas construímos cidades de concreto, asfalto e vidro. Aí vivemos. Ou melhor: trabalhamos. Mas como o lugar onde trabalhamos não é onde queremos viver, então no fim de semana rumamos para onde há floresta ou praia, onde, além do verde e do azul, se pode respirar.
Chegamos. Acabamos de encostar o carro na garagem da casa de campo, fazenda ou do hotel nas montanhas.
Chegar aqui não foi fácil. Duas, cinco, às vezes dez horas de engarrafamento. O verde e o azul, lá longe ainda, difíceis de alcançar. E a gente ali na estrada entalado num terrível rito de ultrapassagem.
[..] O simples fato de nos aproximarmos do verde já muda o clima psicológico dentro do carro. Vai ficando para trás a fuligem da cidade. E ao subir a serra começa uma descontração no diafragma. Aqueles que estavam tensos, indo para a natureza, já tornam suas frases mais macias, já começam a ficar mais amorosos. Algumas brigas de casal vão se diluindo na passagem da cidade para o campo.
Enfim, chegamos. São desembarcadas as malas, as portas e janelas da casa e corpo se abrem e a clorofila começa a entrar pelos poros. As flores continuaram a elaborar suas cores em nossa ausência. Os pássaros continuaram a emplumar as estações. [...]
À noite pode-se acender a lareira e ali se ficar prostrado com um copo de uísque ou vinho, uma xícara de chá ou café, olhando, olhando o fogo como um primitivo na caverna de si mesmo.
Todavia, essa incursão no paraíso vai acabar. O fim de semana escoou-se. Já começamos a refazer as malas e a ficar ansiosos e de mau humor. Vamos começar a descer a serra para retornar ao campo de concentração urbana. Mal sinalizadas, as estradas vez por outra nos deixam ver um cão morto no asfalto. [...]
Aproximamo-nos da cidade. A temperatura começa a subir, um calor abafado vai grudando na pele. O mau cheiro irrita as narinas, o ruído agride os tímpanos. O ritmo do pulso é tenso e há um cruzar de buzinas, faróis, anúncios e sempre a possibilidade de uma emergente violência.
Chegamos ao apartamento ou casa. Descarregamos tudo pelo elevador com ar de vitória e derrota. Na sala, jornais, correspondência acumulada. O dia seguinte já nos espreita na treva. Aí começaremos a fazer novos planos para fugir da cidade. Planejaremos outro feriado e contaremos quanto tempo falta para a aposentadoria.
Há algo de errado nisto. E persistimos.
Fonte: SANTANNA. Affonso Romano de. Porta de colégio e outras crônicas. São Paulo: Ática, 1997. p. 43-46. Adaptado.
Sobre o texto, afirma-se que ele:
- critica, provocando a reflexão, a vida de pessoas que moram na cidade grande e buscam no campo, mesmo que brevemente, a tranquilidade.
- defende, por meio de dados, que a vida urbana deve se sobrepor à vida no campo, já que esta não ocorre como se deseja nos fins de semana.
- defende que a vida campestre deve ser abandonada, já que esta não ocorre como se deseja nos fins de semana.
- critica, de forma negativa, a forma tranquila que as pessoas passam o tempo nos fins de semana.
- defende a ideia de que faz todo o sentido as pessoas buscarem cidades grandes para morar.
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Gabarito
A
Comentário do professor
Alternativa correta: o texto faz uma crítica que provoca reflexão sobre a rotina de moradores da cidade grande que buscam, por curtos períodos, a tranquilidade do campo.
O autor contrapõe imagens do concreto, do asfalto e do ruído com o verde, o ar puro e a desaceleração psicológica ao chegar ao campo. Expressões como “clorofila começa a entrar pelos poros” e a descrição da tensão na volta evidenciam o efeito restaurador momentâneo da natureza.
Ao mesmo tempo, há ironia e julgamento: a fuga é retratada como rotina cíclica e insuficiente, marcada pela preparação da volta e pela ansiedade, o que reforça a ideia de efemeridade do alívio e a crítica ao modo de vida urbano.
A frase explícita “Há algo errado nisto.” sintetiza o convite à reflexão sobre prioridades e a qualidade de vida na cidade.
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