Questão FC545285
O desinteresse pela leitura aumenta à medida que a pessoa cresce e conclui a escola ou a deixa pelo meio. Somente 17% entre os acima de 40 anos disseram que gostam de ler. É terrív
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Instituto SECPLAN · 2025
O país dos não leitores
São números terríveis, deprimentes, divulgados há pouco. Segundo a nova edição da pesquisa “Retratos da Leitura no Brasil”, do Instituto Pró-Livro, concluída em 2024, 53% das pessoas ouvidas admitiram que, nos três meses anteriores, não tinham lido um só livro, nem mesmo em parte. E isso em qualquer mídia, física ou digital, e gênero. Não apenas a frágil área de literatura, biografia, história, infantil ou ensaio fora desprezada — nem os didáticos e religiosos, incluindo a Bíblia, mereceram uma vista d’olhos. A pesquisa revelou que, pela primeira vez, desde 2007, quando ela começou, o Brasil tem mais não leitores do que leitores.
Ao perguntarem aos 47% de leitores se haviam lido o livro inteiro, o número caiu para 27%. Ou seja, em 2024, 73% dos brasileiros não leram um livro até o fim nem para saber se o assassino era o mordomo. Comparada à pesquisa anterior, em 2019, sete milhões de pessoas tinham abandonado os livros, em todos os graus de escolaridade, classe social e faixa etária. Significa que o Brasil perdeu cerca de 1 milhão de leitores por ano. A pesquisa ouviu 5.500 pessoas em 208 municípios.
Cerca de 75% dos entrevistados admitiram que passam mais tempo diante de uma tela do que de uma página impressa. Se isso é consolo, o sujeito fica mais tempo com os olhos a 10 centímetros da tela do que fazendo qualquer outra coisa, como trabalhar, namorar, admirar a paisagem ou não fazer nada. Eu arriscaria que 90% desse tempo diante da tela também não resultam em nada de útil ou objetivo. Não se olha necessariamente para a tela em busca de um dado, uma notícia ou uma informação. Olha-se para a tela, só isso.
O desinteresse pela leitura aumenta à medida que a pessoa cresce e conclui a escola ou a deixa pelo meio. Somente 17% entre os acima de 40 anos disseram que gostam de ler. É terrível, porque quem tem hoje 40 anos nasceu em 1985 e viveu os últimos anos de um mundo em que a leitura ainda não fora esmagada pelas mídias audiovisuais. O que aconteceu a ele para abandonar um hábito que ainda lhe foi incutido na infância?
Não sei. Só sei que fracassamos.
Ruy Castro
(Folha de São Paulo, 17 de janeiro 2025)
Considerando a argumentação global do texto, no terceiro parágrafo, a segunda frase introduz um comentário, cujo objetivo vem a ser:
- estabelecer causalidade entre novas tecnologias e desinteresse pelos livros
- confirmar a presença da leitura digital entre hábitos comuns das pessoas
- contrapor atividades de natureza profissional às de natureza pessoal
- criticar a preferência por comportamentos sem utilidade definida
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Gabarito
D
Comentário do professor
Criticar é a função central do comentário introduzido na segunda frase do terceiro parágrafo. O autor contrapõe o dado estatístico à imagem do indivíduo que passa horas diante da tela e, com recursos irônicos, reduz esse gesto a algo vazio.
Ao enumerar ações que a tela substitui — trabalhar, namorar, admirar a paisagem — o texto enfatiza que o hábito não tem finalidade produtiva nem afetiva. A expressão sobre os olhos a "10 centímetros da tela" serve para amplificar a ideia de obsessão fútil.
Ao afirmar que "90% desse tempo ... não resultam em nada de útil ou objetivo", o autor formula um juízo normativo: não apenas descreve, mas reprova a preferência por atividades sem propósito definido. Assim, o comentário cumpre uma função avaliativa e crítica diante do comportamento social observado.
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