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Questão FC545374

Leia o Texto I e responda à questão abaixo. Felicidade clandestina - Clarice Lispector [...] No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como

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CPCON UEPB · 2025

Leia o Texto I e responda à questão abaixo.

Felicidade clandestina - Clarice Lispector

 

[...] No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

 

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

 

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

 

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

 

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! [...]

 

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro.

Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

 

Fonte: LISPECTOR, Clarisse. Felicidade clandestina. In: O Primeiro Beijo. São Paulo, Ed. Ática, 1996. [adaptado].

 

Em relação ao Texto I, marque a afirmativa CORRETA.

  1. O livro esteve emprestado por vários dias, o que justifica as várias idas da narradora à casa da filha do dono da livraria.
  2. Ao receber o livro, a narradora demonstrou euforia, pulando pelas ruas de Recife, como era de costume.
  3. Após receber o livro, a narradora decidiu que nunca mais voltaria à casa da filha do dono da livraria.
  4. Ao receber o livro, a narradora o segurou contra o peito e voltou para casa.
  5. Após receber o livro, a narradora agradeceu à mãe da menina e saiu pulando pelas ruas.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A alternativa está correta porque descreve de forma fiel o desfecho do episódio narrado.

No texto, a narradora recebe finalmente o livro e há descrição direta do seu gesto: "Peguei o livro." Em seguida, a ação corporal é explicitada: "sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito."

A retomada do deslocamento também aparece de modo claro: "saí andando bem devagar" e há referência ao estado íntimo da personagem no percurso, com o "peito quente, meu coração pensativo".

Portanto, o enunciado da alternativa resume corretamente a cena: ao receber o livro, ela o segurou junto ao peito e voltou para casa, conforme evidenciado pelas passagens citadas.

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