FC ConcursosFC Concursos

Questão FC545381

Leia o Texto I e responda à questão abaixo. Felicidade clandestina - Clarice Lispector [...] No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como

Sem classificação

CPCON UEPB · 2025

Leia o Texto I e responda à questão abaixo.

Felicidade clandestina - Clarice Lispector

 

[...] No dia seguinte fui à sua casa, literalmente correndo. Ela não morava num sobrado como eu, e sim numa casa. Não me mandou entrar. Olhando bem para meus olhos, disse-me que havia emprestado o livro a outra menina, e que eu voltasse no dia seguinte para buscá-lo. Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda e eu recomeçava na rua a andar pulando, que era o meu modo estranho de andar pelas ruas de Recife. Dessa vez nem caí: guiava-me a promessa do livro, o dia seguinte viria, os dias seguintes seriam mais tarde a minha vida inteira, o amor pelo mundo me esperava, andei pulando pelas ruas como sempre e não caí nenhuma vez.

 

Mas não ficou simplesmente nisso. O plano secreto da filha do dono de livraria era tranquilo e diabólico. No dia seguinte lá estava eu à porta de sua casa, com um sorriso e o coração batendo. Para ouvir a resposta calma: o livro ainda não estava em seu poder, que eu voltasse no dia seguinte. Mal sabia eu como mais tarde, no decorrer da vida, o drama do “dia seguinte” com ela ia se repetir com meu coração batendo.

 

E assim continuou. Quanto tempo? Não sei. Ela sabia que era tempo indefinido, enquanto o fel não escorresse todo de seu corpo grosso. Eu já começara a adivinhar que ela me escolhera para eu sofrer, às vezes adivinho. Mas, adivinhando mesmo, às vezes aceito: como se quem quer me fazer sofrer esteja precisando danadamente que eu sofra.

 

Quanto tempo? Eu ia diariamente à sua casa, sem faltar um dia sequer. Às vezes ela dizia: pois o livro esteve comigo ontem de tarde, mas você só veio de manhã, de modo que o emprestei a outra menina. E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados.

 

Até que um dia, quando eu estava à porta de sua casa, ouvindo humilde e silenciosa a sua recusa, apareceu sua mãe. Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa. Pediu explicações a nós duas. Houve uma confusão silenciosa, entrecortada de palavras pouco elucidativas. A senhora achava cada vez mais estranho o fato de não estar entendendo. Até que essa mãe boa entendeu. Voltou-se para a filha e com enorme surpresa exclamou: mas este livro nunca saiu daqui de casa e você nem quis ler! [...]

 

Como contar o que se seguiu? Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada. Peguei o livro.

Não, não saí pulando como sempre. Saí andando bem devagar. Sei que segurava o livro grosso com as duas mãos, comprimindo-o contra o peito. Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa. Meu peito estava quente, meu coração pensativo.

 

Fonte: LISPECTOR, Clarisse. Felicidade clandestina. In: O Primeiro Beijo. São Paulo, Ed. Ática, 1996. [adaptado].

 

Sobre o Texto I, marque a alternativa que indica o momento que a narradora-personagem recebe o livro.

  1. “Quanto tempo levei até chegar em casa, também pouco importa” (6º§).
  2. “E eu, que não era dada a olheiras, sentia as olheiras se cavando sob os meus olhos espantados” (4º§).
  3. “Ela devia estar estranhando a aparição muda e diária daquela menina à porta de sua casa” (5º§).
  4. “Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada” (6º§).
  5. “Boquiaberta, saí devagar, mas em breve a esperança de novo me tomava toda” (1º§).
Mostrar resposta e comentário

Gabarito

D

Comentário do professor

Momento da recepção: a narradora recebe o livro quando, já perante a mãe da moça, a verdade vem à tona; no trecho indicado ela diz: “Eu estava estonteada, e assim recebi o livro na mão. Acho que eu não disse nada.”

Esse enunciado expressa de forma direta a ação de ser entregue o livro: o verbo recebi e a expressão na mão mostram a concretude do ato. A adjetivação estonteada revela o estado emocional que acompanha a recepção.

O complemento “Acho que eu não disse nada” evidencia o impacto íntimo do momento, indicando silêncio e assombro. Assim, o trecho selecionado é o ponto narrativo preciso em que o objeto desejado finalmente lhe é entregue.

Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em

Continue aprendendo