Questão FC545574
Leia o texto abaixo. Rituais Por Cláudia Laitano Venho de uma família que nunca caprichou muito nos rituais. Natal, Páscoa e mesmo os aniversários eram celebrados sem grandes extre
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FUNDATEC · 2025
Leia o texto abaixo.
Rituais
Por Cláudia Laitano
Venho de uma família que nunca caprichou muito nos rituais. Natal, Páscoa e mesmo os aniversários eram celebrados sem grandes extremos de inventividade. Nada de tio fantasiado de Papai Noel, patinhas de coelho feitas de talco ou produções muito elaboradas nas festas. Pessoal lá em casa era adepto do pacote BBB: bolo, balão, brigadeiro.
A suspeita de que eu, talvez, estivesse perdendo alguma coisa surgiu mais tarde. Já adolescente, fui passar o fim de semana da Páscoa na casa de uma amiga e, para minha surpresa, o almoço caprichado e os ovinhos escondidos embaixo do sofá eram apenas o aperitivo da festa. Havia toda uma operação logística para transformar o domingo inteiro em um dia especial para as crianças. Fiquei maravilhada com toda aquela dedicação à criação de memórias e me lembro de ter feito uma anotação mental para o futuro. Quando eu tivesse filhos, todas as Páscoas seriam assim: divertidas, monumentais, memoráveis.
Falhei miseravelmente.
Talvez o talento para ritualizar o cotidiano seja hereditário e eu não tive muita sorte nessa loteria genética. Talvez o problema seja geracional, e eu tenha crescido acreditando que o espontâneo, o não planejado, valia mais do que a tradição. De qualquer forma, acho bonitas as raras ocasiões em que um ritual tradicional é acompanhado pelo sentimento genuíno que deveria estar lá desde o início. O casamento que nos faz pensar mais na felicidade dos noivos do que na qualidade do bufê, o velório em que o compartilhamento do luto é mais importante do que uma bênção apressada e protocolar. O mais comum, no entanto, é que os rituais sacrifiquem o sentimento em nome da mera repetição de uma tradição esvaziada – ou que tudo acabe se transformando em espetáculo.
Um exemplo. Aqui nos Estados Unidos, o pedido de casamento sempre envolveu certo protocolo. O noivo tem que “surpreender” a noiva com um pedido criativo, e ela tem que ser “surpreendida” pelo sujeito que se ajoelha à frente dela com um anel. Durante anos vi isso em filmes, e achava que não era possível que a coisa acontecesse assim mesmo, de verdade. Por incrível que pareça (pra mim, pelo menos), versões superproduzidas desse modelo de pedido de casamento tão notavelmente anacrônico são hoje mais comuns do que Papai Noel de shopping – no Brasil inclusive.
Fazemos as coisas de certo modo porque elas nos indicam de onde viemos, da mesma forma que abrimos mão de algumas tradições exatamente para marcar uma diferença, uma mudança de costumes, uma transformação social. No caso dos pedidos de casamento ultrarromânticos, o curioso é ver a tradição indo para um lado, enquanto as pessoas de verdade parecem estar indo, quase todas, para o outro.
(Disponível em: gauchazh.clicrbs.com.br/colunistas/claudia-laitano/noticia/2025/10/rituaiscmh9apwui0055010drru95zic. html – texto adaptado especialmente para esta prova).
Assinale a alternativa que apresenta a substituição ou colocação INCORRETA do termo sublinhado por pronome oblíquo.
- “Talvez o talento para ritualizar o cotidiano seja hereditário” \(\to\) “para ritualizá-lo”.
- “o pedido de casamento sempre envolveu certo protocolo” \(\to\) “sempre envolveu-lhe”.
- “estivesse perdendo alguma coisa surgiu mais tarde” \(\to\) “estivesse perdendo-a”.
- “O noivo tem que ‘surpreender’ a noiva com um pedido” \(\to\) “tem que a surpreender”.
- “para marcar uma diferença” \(\to\) “para marcá-la”.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Por que "sempre envolveu-lhe" está incorreto.
Na oração "o pedido de casamento sempre envolveu certo protocolo", o sintagma sublinhado exerce a função de objeto direto. O verbo envolver aqui exige complemento sem preposição.
O pronome oblíquo lhe corresponde a objeto indireto (ou dativo) e não pode substituir um objeto direto. Além disso o substantivo "protocolo" é masculino singular, portanto o pronome adequado seria o.
Formas corretas de substituição: "o pedido de casamento sempre o envolveu" ou, com ênclise, "sempre envolveu-o". Essas opções preservam a regência verbal e a concordância de gênero e número.
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