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Questão FC545638

Qual é o ponto decisivo dessa cena para a tese do conto?

Sem classificação

IBADE · 2025

“O Espelho”

Machado de Assis

 

Quatro ou cinco cavalheiros debatiam, uma noite, várias questões de alta transcendência, sem que a disparidade dos votos trouxesse a menor alteração aos espíritos. A casa ficava no morro de Santa Teresa, a sala era pequena, alumiada a velas, cuja luz fundia-se misteriosamente com o luar que vinha de fora. Eu, que era um dos convivas, contei-lhes que possuía uma teoria, a qual me tinha custado grande trabalho e algumas noites de insônia; mas não lhe queria expor sem que me prometessem ouvi-la com paciência. Prometeram todos.

 

— A teoria é esta — disse eu —: cada criatura humana traz duas almas consigo: uma que olha de dentro para fora, outra que olha de fora para dentro. A primeira, a alma interior, é a que sente e pensa; a segunda, a alma exterior, é a que nos vem de fora, da rua, das pessoas, das coisas. Esta domina muitas vezes aquela; e, em certos casos, não há propriamente duas, mas uma só alma exterior.

 

Pediram-me exemplos. Respondi que não os havia catalogados, mas que ia contar um caso, acontecido comigo, há muitos anos, em que vi a minha alma interior desaparecer, cedendo a outra, nascida de um objeto, de um simples objeto. E contei-lhes.

 

Era eu então rapaz de vinte e cinco anos, recém-saído de um curso, quando uma velha tia minha me deixou por herança um espelho grande, antigo, com moldura larga e severa. Não me parecia valiosa a dádiva; mas, por lembrança, levei-o comigo para uma casa de subúrbio, onde me recolhi, a fim de estudar. Ora, sucedeu que, mal instalado, comecei a sentir um vazio dentro de mim, como se me houvesse despido de mim mesmo. O estudo não me prendia, a leitura cansava-me; eu andava pela casa, de um aposento a outro, com um aborrecimento que não sei definir.

 

Foi então que me lembrei do espelho. Mandei pendurá-lo na parede da sala; ao vê-lo, senti-me outro. Não é que eu me achasse mais formoso do que era; mas o espelho tinha a virtude de dar consistência à minha pessoa: eu me via, e esse simples fato restituía-me a presença. Dentro de pouco, o hábito apoderou-se de mim. Vivia diante do espelho; trabalhava, comia, descansava, sempre com o olhar a buscar, de instante a instante, a confirmação da minha figura naquela lâmina tranquila. Se o retiravam, tudo caía no mesmo vazio anterior; se o repunham, eu renascia.

 

Parecer-vos-á ridículo; não o era então. O que digo é que a minha alma exterior se compunha, naquele tempo, desse objeto. Não era vaidade de beleza, nem amor próprio do traje; era qualquer coisa mais funda: a necessidade de um reflexo que me certificasse da minha existência. Ora, uma noite, por troça de amigos, esconderam-me o espelho. Dizei o que quiserdes: senti desfalecer a vida íntima; tornei-me sombra; e, apesar de me ver com os olhos do corpo, não me sentia com os olhos do espírito. Só quando me restituíram o espelho, voltei a ser eu.

 

Daí infiro que o homem, em não poucos casos, vive de fora para dentro; e que um objeto, um cargo, uma farda, um título, pode suplantar a alma interior, até anulá-la. Se isto é triste ou ridículo, não disputo; conto o que foi. E, posto que tenha hoje a casa cheia de espelhos, nenhum tem para mim a força daquele primeiro, que não era só vidro e azougue, mas um pedaço da minha própria alma.

 

Fonte: Edição de referência: Rio de Janeiro: Lombaerts & C., 1882. páginas 241-257. (Adaptado) - https://machadodeassis.net/

 

Quando o espelho é retirado pelos amigos, o narrador descreve “desfalecer da vida íntima”.

 

Qual é o ponto decisivo dessa cena para a tese do conto?

  1. A falta do vidro reduz o conforto da casa, mostrando um efeito sobretudo ambiental e discreto.
  2. A ausência do objeto rompe a continuidade do eu, revelando dependência de um apoio vindo de fora.
  3. O espaço escuro provoca tédio passageiro, indicando ajuste de humor sem impacto de fundo nas ideias.
  4. O sumiço do espelho desperta comparação competitiva, revelando inveja silenciosa entre os colegas.
  5. O transtorno momentâneo sugere cansaço de rotina, pedindo pausa breve e leitura mais leve.
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Gabarito

B

Comentário do professor

A cena em que o espelho é escondido mostra, de modo decisivo, a perda da presença subjetiva: apesar de se ver fisicamente, o narrador sente o desvanecer de sua vida íntima.

Isso demonstra que sua identidade dependia de um suporte externo, ou seja, daquilo que ele chama de alma exterior, formada pelo objeto.

Ao romper essa relação, a ausência do espelho rompe também a continuidade do eu, revelando que o sujeito não se sustenta apenas pela experiência interior, mas necessita de confirmação externa para existir plenamente.

Portanto, a cena confirma a tese do conto sobre a fragilidade do eu quando este é apoiado em objetos, cargos ou aparências vindos de fora.

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