Questão FC545655
Por que não aceita o nosso, Jacinta?
Sem classificação
AMEOSC · 2025
O texto seguinte servirá de base para responder à questão.
Jacinta
Faz tempo, recusava-me a ir, porém, hoje, impossível evitar.
Enfermaria da UTI do Hospital São Lucas, Vitória,Espírito Santo, Brasil, Jacinta em coma.
Desde maio, Jacinta está em coma; só hoje fui visitá-la.
Creio que não suportou a dor de celebrar um ano da morte de sua filha, que seria no mês seguinte, e fugiu.
Fugiu para dentro de si, numa viagem amarga que não evidencia sua sempre forte alegria com a vida − entrou em silêncio, em distanciamento, deixou-nos.
Mas não morreu. Está ali e chorou quando lhe disse que estava ali. E chorei porque quem vi ali não era Jacinta.
Vi um corpo sofrendo, moribundo.
Perguntei à enfermeira e, não satisfeita, perguntei ao médico. Confirmado. Era Jacinta. Não vi uma pessoa, um ser imbuído de vida. Vi o sofrimento de alguém que não quer viver e não tem a alegria de ir − sofre, ego ferido pela vida, e reclama amor.
Por que não aceita o nosso, Jacinta?
Temos pouco, não temos sua filha. Estamos vivos,...
Viva!
Não viveu. Foi-se no dia seguinte.
GONZÁLEZ, Liana. Jacinta. Vitória: Universidade Federal do Espírito Santo, 2023. Disponível em: https://repositorio.ufes.br/server/api/core/bitstreams/5e31bd4b-2da7-42 b6-bf5a-f3253a96eb4e/content . Acesso em: 16 out. 2025.
A leitura do texto "Jacinta" permite inferir que o narrador, ao relatar sua visita à amiga hospitalizada, expressa sobretudo:
- o reconhecimento da morte simbólica de Jacinta, cuja ausência de vitalidade revela uma desconexão entre corpo e espírito, resultante de um luto não elaborado e de um amor que se tornou incapaz de regeneração.
- a perplexidade diante da ineficácia da medicina moderna, que, embora mantenha o corpo vivo, não consegue restaurar o vínculo afetivo perdido pela paciente em coma.
- a aceitação serena da inevitabilidade da morte, compreendida como libertação do sofrimento e dissolução das amarras emocionais que prendem o ser à dor.
- a esperança contida em reencontrar na paciente traços de vitalidade e resistência, interpretando o choro de Jacinta como sinal de comunicação e de reaproximação afetiva.
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Gabarito
A
Comentário do professor
O narrador registra o reconhecimento da morte simbólica de Jacinta: o corpo está presente na UTI, mas a vivacidade que identifica a pessoa desapareceu. A frase "não vi uma pessoa" e o choro que não restaura a vida confirmam essa impressão.
Os dados temporais (coma desde maio; o próximo aniversário da filha) e a busca por confirmação junto à enfermeira e ao médico reforçam a leitura de uma desconexão entre corpo e espírito. Essa condição decorre de um luto não elaborado, que impede a retomada do vínculo com a vida.
O narrador percebe, ainda, um amor incapaz de regeneração, transformado em peso que silencia Jacinta. O relato, assim, aponta para a perda da identidade vital antes da morte física.
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