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Questão FC551212

O garçom depositou cuidadosamente sobre a toalhinha alva dois copos cheios de água, dois guardanapos de papel, com florzinhas pálidas, e duas tacinhas de vidro, contendo, cada uma

Morfologia

IBAM · 2025

Texto 1

O SORVETE (trecho)

 

Estávamos absortos na contemplação ritual, misto de atenção a formas simbólicas, e de sonho em torno de ideias complexas que elas sugeriam – ali, diante daqueles pudins e daqueles roxos, amarelos, solferinos, verdes e róseos montículos de açúcar, geleia, ovo, frutas cristalizadas e invisível manteiga, quando um objeto vulgar, mas insólito no lugar onde se achava, me captou o interesse. Encostado a uma das três portas da confeitaria, do lado da calçada, um quadro-negro propunha-nos os seguintes dizeres em giz branco:

   

Hoje

Delicioso sorvete de

ABACAXI

Especialidade da casa

Hoje!

   

A inscrição emocionou-me intensamente, e dei conta a Joel da minha perturbação.

 

– Você está vendo?

 

Aparentemente, Joel não se deixara invadir pelo sortilégio das palavras. Sua superioridade!

 

– “Delicioso sorvete de abacaxi...” Nunca tomei disso.

 

– Eu também não, respondeu o fortíssimo Joel. Deve ser porcaria.

(...)

 

Fomos à confeitaria, templo misterioso onde se ocultava, na parte dos fundos, vedada por uma portinha de vidro opaco, a essência imanente à coisa ou palavra sorvete, e que meus pobres sentidos se aguçavam para interpretar.

 

O garçom depositou cuidadosamente sobre a toalhinha alva dois copos cheios de água, dois guardanapos de papel, com florzinhas pálidas, e duas tacinhas de vidro, contendo, cada uma delas, meia esfera de uma substância alva e brilhante... Crianças de cinco anos desprezarão minha narrativa; e já ouço um leitor maduro, que me interrompe: “Afinal este sujeito quer transformar o ato de tomar sorvete numa cena histórica?”. Leitor irritado, não é bem isso. Peço apenas que te debruces sobre esta mesa a cuja roda há dois meninos do mais longe sertão. Eles nunca haviam sentido na boca o frio de uma pedra de gelo, e, como todos os meninos de todos os países, se travavam conhecimento com uma coisa de que só conhecessem antes a representação gráfica ou oral, dela se aproximavam não raro atribuindo-lhe um valor mágico, às vezes divino, às vezes cruel, em desproporção com a realidade e mesmo fora dela; um valor independente da coisa e diretamente ligado a sugestões de som, cor, forma, calor, densidade, que as palavras despertam em nosso espírito maleável... Como posso reconstituir agora tudo o que nós criáramos, para nosso próprio uso, em torno da palavra sorvete, representativa de uma espécie rara de refresco, que às pequenas cidades não era dado conhecer; e cruzada bruscamente com a nossa velha e querida palavra abacaxi, ambas como que envoltas, por uma astúcia do gerente da confeitaria, na seda fina e lisa da palavra “delicioso”?

 

A carga de simpatia e sensualidade com que me atirei – nos atiramos – às meias esferas trazia talvez em si o germe da decepção que logo nos assaltou. O sorvete era detestável, de um frio doloroso, do qual se excluía toda lembrança de abacaxi, para só ficar a ideia de uma coisa ao mesmo tempo pétrea e frágil, agressiva aos dentes, e, mais para além deles, a uma região íntima do ser em que está o núcleo da personalidade, sua mais profunda capacidade de gozar e sofrer. Era uma dor universal o que ele espalhava, e tão rápida e difundida como se invadisse no mesmo segundo, por mil filamentos, toda a rede nervosa... Lágrimas subiram-me aos olhos. No rosto de Joel, também o sofrimento se desenhava.

ANDRADE, Carlos Drummond. Contos de aprendiz. São Paulo: Companhia das Letras, 2012

 

Estávamos absortos na contemplação ritual (1º parágrafo)

A alternativa que contém um verbo conjugado nos mesmos tempo e modo do verbo do trecho acima é:

  1. A inscrição emocionou-me intensamente
  2. Aparentemente, Joel não se deixara invadir pelo sortilégio das palavras
  3. e que meus pobres sentidos se aguçavam para interpretar
  4. Fomos à confeitaria
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Estávamos é forma do verbo estar na 1ª pessoa do plural, no pretérito imperfeito do indicativo, que indica ação passada contínua ou habitual.

Na frase da alternativa, se aguçavam corresponde ao verbo aguçar conjugado no pretérito imperfeito do indicativo (aguçavam), na 3ª pessoa do plural, com o pronome reflexivo se. O pronome apenas indica voz reflexiva e não altera tempo nem modo.

Portanto, embora os sujeitos sejam diferentes (nós / meus pobres sentidos), ambos os verbos estão no mesmo tempo (pretérito imperfeito) e no mesmo modo (indicativo), razão pela qual a alternativa é equivalente em tempo e modo ao verbo do trecho original.

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