Questão FC551246
Para o professor do MIT, Maz Tegmark, seria bom discutir bastante e avançar em reflexões antes de dar todo o poder às novas tecnologias. As leis deveriam ser modernizadas, as desig
Morfologia
IBAM · 2021
Texto: A INTELIGÊNCIA DO FUTURO
Você tomaria uma pílula que o tornaria um gênio muito acima da média? Há vinte anos, o escritor Alan Glynn escreveu um livro que serviu de base para um filme. Sem limites (2011). Do filme, surgiria uma série de mesmo nome. Fundindo aqui o livro, o filme e a série, temos uma droga nova e poderosa: MDT-48. Seu uso produz uma explosão de inteligência no usuário. O cérebro passa a associar tudo o que foi lido ou visto e elabora soluções fulminantes para os problemas que antes eram insuperáveis. Você viu um documentário de madrugada aos 16 anos sobre o concerto de supercordas? Ele está lá, no fundo da sua memória, e a pílula pode trazê-lo a tona combinado com as aulas que você já viu e associações com outros conhecimentos.
A droga não inventa inteligência, ela apenas permite que se utilizem todos os dados possíveis em uma capacidade nova de concentração e de resolução de desafios. O diálogo, óbvio, e com um dos mais antigos mitos pseudocientíficos do mundo: nós utilizaríamos apenas 10% do total da capacidade do nosso cérebro. Existiria, diz a lenda urbana, um campo enorme de 90% a explorar. Acho que isso evita a humilhação de perceber que, sim, utilizamos 100% da nossa capacidade e ainda somos o que somos... seria bom ter um gênio repousando nas cavernas inexploradas da nossa consciência.
No ano passado, li obras que diminuíram um pouco da minha ignorância sobre inteligência e cérebro. Um foi o texto do cientista Miguel Nicolelis - O verdadeiro criador de tudo: como o cérebro humano esculpiu o universo como nós o conhecemos. A maneira como ele analisa a evolução do cérebro humano faz pensar na maravilha e na prisão que o cérebro de cada um de nós representa. Como criamos a visão do universo? Existe uma na caverna de Lascaux, com pinturas do homem pré-histórico. Existe outra na Capela Sistina, no Vaticano. Existe uma teoria física contemporânea explicada em desenhos da Nasa. O que elas teriam em comum? O cérebro, criador de tudo, que descreve, analisa e inventa o que pode a partir do que consegue perceber.
A expressão "inteligência artificial" (IA) evoca os velhos medos da "síndrome de Frankenstein". Como no romance da talentosa Mary Shelley, seremos um dia destruídos por nossas criações? O substantivo evoca o melhor de nós (inteligência) e o adjetivo traz o medo (artificial). Sendo, por definição, "artificial", é algo que ajudará o "natural", ou seja, o Homo sapiens, ou rivalizará com ele, eventualmente o destruindo?
Para o professor do MIT, Maz Tegmark, seria bom discutir bastante e avançar em reflexões antes de dar todo o poder às novas tecnologias. As leis deveriam ser modernizadas, as desigualdades sociais diminuídas e os parâmetros éticos devem ser solidificados antes que tudo fique incontrolável. Nossa velha e humana consciência ainda é o grande desafio, e não, exatamente, a IA. De acordo com Tegmark: "Você deseja ser dono de sua tecnologia ou deseja que a tecnologia seja sua dona? O que você quer que signifique ser humano na era da IA?
Diante dos medos e esperanças de todo limiar de revolução tecnológica, precisamos trazer a síndrome de Frankenstein sempre para o debate. O ser criado pela costura de cadáveres e animado pela eletricidade não era, exatamente, o problema. O grande problema ético ainda está na Inteligência Natural, não na Artificial.
LEANDRO KARNAL Adaptado de cultura.estadao.com.br, 20/01/2021.
Considere o trecho abaixo para responder a questão.
O diálogo, óbvio, é com um dos mais antigos mitos pseudocientíficos do mundo: (2º parágrafo)
O sentido do prefixo “pseudo-”, presente em “pseudocientíficos”, justifica o seguinte recurso de linguagem presente no desenvolvimento do parágrafo:
- conjugação no futuro do pretérito
- valor metafórico da palavra “gênio”
- comparação entre dados estatísticos
- sentido implícito no uso de reticências
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Gabarito
A
Comentário do professor
Futuro do pretérito (ou condicional) indica hipótese, conjectura ou ação dependente de condição. No trecho, esse tempo verbal não afirma uma verdade factual, mas descreve uma suposição ligada ao mito sobre o cérebro.
O prefixo pseudo qualifica algo como aparentemente científico, porém falso. Assim, o autor recorre ao futuro do pretérito para marcar que a tese dos “10%” é uma suposição, não um dado comprovado.
Exemplos do texto: utilizaríamos e existiria. Essas formas verbais colocam a ideia no campo da possibilidade e da crença, reforçando o caráter questionável da afirmação.
Portanto, a escolha do futuro do pretérito justifica semanticamente o rótulo pseudocientífico, ao sinalizar que a proposição é conjectural e não cientificamente comprovada.
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