Questão FC551307
O importante é não deixar que o peso do real atropele a leveza do que parece impossível, que nos projeta. Que a pressa não atropele o propósito. Que o medo não atropele a esperança
Morfologia
IBAM · 2025
Texto I
Quantas vezes você mudou de opinião sobre o que quer ser quando crescer?
Luana Génot
Muitas vezes, perguntamos às crianças o que querem ser quando crescer. E, por mais inocente que pareça, essa pergunta carrega muitas nuances: ela faz com que a gente projete o futuro, mas também perceba o quanto os nossos sonhos mudam com o tempo. Quanto mais repertório acumulamos, mais atualizamos nossos desejos. O sonho de ontem pode não fazer mais sentido hoje, e está tudo bem.
Um executivo, certa vez, me contou algo que jamais esqueci. Ele saiu do interior da Bahia sonhando em ser caminhoneiro, como o pai. Achava que aquele era o topo. Não porque faltasse ambição, mas porque faltavam referências. Ao se mudar para estudar, porém, descobriu outros mundos. Passou a almejar um trabalho como auxiliar, depois, novos postos, e foi galgando degraus até virar diretor. Hoje, mais do que cargos, sonha em ter tempo. Tempo para si, para a família, para ver o sol se pôr.
Sonhos mudam de roupa conforme a estação da vida. Às vezes, crescem; outras vezes, se simplificam. Já quisemos o palco e, depois, queremos o sossego. Já almejamos o sucesso financeiro a todo custo e, em seguida, que'1remos a saúde mental acima de tudo. E tudo isso faz parte do mesmo caminho e pode até coexistir em muitas medidas.
O que me intriga é que também há aqueles que não se permitem sonhar. Gente que aprendeu cedo que isso é luxo, coisa de quem tem tempo ou dinheiro. Sonhar, porém, é ferramenta de sobrevivência, especialmente para quem sempre precisou lutar para existir. É uma forma de hackear o sistema, de furar a bolha do “impossível”, de encontrar brechas nas estruturas que dizem “não”.
O sonho é ancestral. É herança das nossas avós que sonhavam em liberdade enquanto lavavam roupa no rio. É a centelha que moveu quem veio antes, que acreditou num amanhã que talvez nunca tenha visto, mas plantou para que a gente colhesse. Por isso, deixar o sonho morrer é como cortar o fio que liga o passado ao futuro.
Manter os desejos em dia é um ato de resistência. É como revisar um documento importante da alma: precisa ser atualizado, revisitado, cuidado. Porque o mundo muda, e a gente muda junto. E, se há dias em que algo almejado parece distante, que isso vire farol, mesmo que fraquinho, para iluminar o caminho.
Às vezes, o sonho não é mais ser astronauta, é só dormir melhor. Não é mais ser presidente, mas conseguir pagar as contas e sorrir. E está tudo certo. A beleza existe em continuar sonhando, mesmo que isso varie conforme o fôlego do momento.
O importante é não deixar que o peso do real atropele a leveza do que parece impossível, que nos projeta. Que a pressa não atropele o propósito. Que o medo não atropele a esperança. Então, se hoje você não souber responder “o que quer ser quando crescer”, relaxa. Talvez o que você precise é só se perguntar: o que ainda quero sonhar?
Fonte: https://oglobo.globo.com/ela/luanagenot/ coluna/2025/11/quantas-vezes-voce-mudou-deopiniao- sobre-o-que-quer-ser-quando-crescer.ghtml. Acesso em 15/11/2025. Adaptado.
“Gente que aprendeu cedo que isso é luxo, coisa de quem tem tempo ou dinheiro”. Nesse trecho, os termos em destaque são classificados, respectivamente, como:
- pronome relativo e pronome relativo.
- pronome relativo e conjunção integrante.
- conjunção integrante e pronome relativo.
- conjunção integrante e conjunção integrante.
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Gabarito
B
Comentário do professor
A alternativa está correta porque os dois que exercem funções distintas na frase: o primeiro é pronome relativo e o segundo, conjunção integrante.
O primeiro que retoma o substantivo gente e introduz a oração subordinada adjetiva "que aprendeu cedo...". Substitui-se por "a qual" sem perda de sentido, portanto tem valor referencial típico de pronome relativo.
O segundo que não retoma um substantivo; introduz a oração completiva "isso é luxo" que funciona como objeto direto do verbo aprendeu. Por isso é conjunção integrante, pois liga o verbo a uma oração subordinada substantiva completiva.
Teste prático: trocar o primeiro por "a qual" é possível; trocar o segundo por "a qual" não preserva a estrutura, confirmando a classificação.
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