Questão FC551576
O importante é não deixar que o peso do real atropele a leveza do que parece impossível, que nos projeta. Que a pressa não atropele o propósito. Que o medo não atropele a esperança
Semântica
IBAM · 2025
Texto I
Quantas vezes você mudou de opinião sobre o que quer ser quando crescer?
Luana Génot
Muitas vezes, perguntamos às crianças o que querem ser quando crescer. E, por mais inocente que pareça, essa pergunta carrega muitas nuances: ela faz com que a gente projete o futuro, mas também perceba o quanto os nossos sonhos mudam com o tempo. Quanto mais repertório acumulamos, mais atualizamos nossos desejos. O sonho de ontem pode não fazer mais sentido hoje, e está tudo bem.
Um executivo, certa vez, me contou algo que jamais esqueci. Ele saiu do interior da Bahia sonhando em ser caminhoneiro, como o pai. Achava que aquele era o topo. Não porque faltasse ambição, mas porque faltavam referências. Ao se mudar para estudar, porém, descobriu outros mundos. Passou a almejar um trabalho como auxiliar, depois, novos postos, e foi galgando degraus até virar diretor. Hoje, mais do que cargos, sonha em ter tempo. Tempo para si, para a família, para ver o sol se pôr.
Sonhos mudam de roupa conforme a estação da vida. Às vezes, crescem; outras vezes, se simplificam. Já quisemos o palco e, depois, queremos o sossego. Já almejamos o sucesso financeiro a todo custo e, em seguida, queremos a saúde mental acima de tudo. E tudo isso faz parte do mesmo caminho e pode até coexistir em muitas medidas.
O que me intriga é que também há aqueles que não se permitem sonhar. Gente que aprendeu cedo que isso é luxo, coisa de quem tem tempo ou dinheiro. Sonhar, porém, é ferramenta de sobrevivência, especialmente para quem sempre precisou lutar para existir. É uma forma de hackear o sistema, de furar a bolha do “impossível”, de encontrar brechas nas estruturas que dizem “não”.
O sonho é ancestral. É herança das nossas avós que sonhavam em liberdade enquanto lavavam roupa no rio. É a centelha que moveu quem veio antes, que acreditou num amanhã que talvez nunca tenha visto, mas plantou para que a gente colhesse. Por isso, deixar o sonho morrer é como cortar o fio que liga o passado ao futuro.
Manter os desejos em dia é um ato de resistência. É como revisar um documento importante da alma: precisa ser atualizado, revisitado, cuidado. Porque o mundo muda, e a gente muda junto. E, se há dias em que algo almejado parece distante, que isso vire farol, mesmo que fraquinho, para iluminar o caminho.
Às vezes, o sonho não é mais ser astronauta, é só dormir melhor. Não é mais ser presidente, mas conseguir pagar as contas e sorrir. E está tudo certo. A beleza existe em continuar sonhando, mesmo que isso varie conforme o fôlego do momento.
O importante é não deixar que o peso do real atropele a leveza do que parece impossível, que nos projeta. Que a pressa não atropele o propósito. Que o medo não atropele a esperança. Então, se hoje você não souber responder “o que quer ser quando crescer”, relaxa. Talvez o que você precise é só se perguntar: o que ainda quero sonhar?
Fonte: https://oglobo.globo.com/ela/luanagenot/ coluna/2025/11/quantas-vezes-voce-mudou-deopiniao- sobre-o-que-quer-ser-quando-crescer.ghtml. Acesso em 15/11/2025. Adaptado.
No trecho em que a autora menciona “O sonho de ontem pode não fazer mais sentido hoje, e está tudo bem” , o emprego da expressão em destaque cumpre a função de:
- reforçar uma ideia de conformismo.
- introduzir uma concessão implícita.
- induzir o leitor a combater a resiliência.
- amenizar possíveis julgamentos sobre a mudança.
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Gabarito
D
Comentário do professor
A expressão "e está tudo bem" atua como um recurso discursivo de amenização.
Ao dizer isso, a autora suaviza eventuais críticas ou frustrações que o leitor possa sentir diante da mudança de sonhos, transmitindo aceitação.
Funciona como um marcador de tom conciliador: reduz a carga negativa associada à mudança e legitima a flexibilidade dos desejos ao longo da vida.
Em termos pragmáticos, a frase introduz uma atitude de empatia e desestigmatização, prevenindo julgamentos morais e permitindo que a mudança seja vista como natural e tolerável.
Assim, o trecho cumpre a função de tornar a ideia mais palatável e de encorajar uma leitura permissiva e compreensiva das transformações pessoais.
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