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INDEPENDÊNCIA DE QUEM?

Sintaxe

IBAM · 2022

INDEPENDÊNCIA DE QUEM?

 

A escravidão moldou o mundo. Nos EUA, deu em guerra civil. Países como Portugal, Inglaterra, Espanha, França e Brasil fizeram fortunas vendendo jovens negros. Países Baixos, escandinavos, até a Suíça, participaram do negócio, que durou quase 400 anos e foi abençoado por Roma, que hoje chamamos de Vaticano graças a Mussolini; como primeiro-ministro, ele transformou em 1929 o enclave de 44 hectares da Igreja Católica em cidade-Estado independente.

 

Para a Igreja, interessava a evangelização de indígenas e negros, considerados infiéis. Especialmente os africanos, na sombra da religião muçulmana, que atravessava o Saara.

 

Os missionários pegaram carona nos interesses econômicos das monarquias europeias pelo Novo Mundo. Para entender a história brasileira, basta seguir o caminho da escravidão.

 

Na formação econômica e social do Pais, via ciclos do açúcar, tabaco, couro, ouro, diamante, café, a prata do Peru, cujos mineiros escravizados eram vendidos no Rio de Janeiro, até o algodão, paradoxalmente a matéria-prima da Revolução Industrial, tinha tecnologia e mão de obra escrava.

 

Igreja e Estado eram uma coisa só. Se Roma levantava o polegar para a escravização, ela seguia em frente. As "peças", como eram chamados, eram batizadas na África ou em portos brasileiros. Dom João li ordenou que escravos fossem marcados a ferro em brasa com o símbolo da coroa portuguesa, como prova de que o imposto real tinha sido pago.

 

Posteriormente, Dom João IV substituiu a marca de ferro por uma argola pendurada no pescoço. Marcavam com ferro em brasa as iniciais do proprietário ainda nos leilões no desembarque. Era chamado de "carimbo", palavra que vem do quimbundo, língua banto de Angola: ka + rimbu.

 

Ordens religiosas possuíam escravos. Em 1756, foi adotada uma lei que obrigava os "navios negreiros" a terem capelães a bordo, para administrarem o sacramento. Padre Luís Brandão, reitor do Colégio de Luanda, escreveu: "Mesmo que vivemos aqui já faz quarenta anos e temos entre nós padres muito doutos, nunca consideramos este tráfico como ilícito. Os padres do Brasil também não, e sempre houve, naquela província, padres eminentes pelo saber. Assim, tanto nós como os padres do Brasil compramos aqueles escravos sem escrúpulos".

 

Poucas vozes se levantaram contra. "O missionário italiano Gabriel Malagrida (1689-1761), que tendo também contestado os métodos utilizados no Brasil em relação aos negros e por causa das suas ideias e oposição ao Marquês de Pombal, foi queimado vivo pela inquisição em Lisboa", afirma o filósofo teólogo da Universidade Católica de Pernambuco, Sergio Douets Vasconcelos.

 

A Igreja foi conivente e usufruiu da escravidão que destruiu aldeias e nações milenares na África. Na costa, europeus davam armas, tabaco e bebida alcoólica para reis africanos invadirem reinos vizinhos, destruindo a indústria de manufaturados, a agricultura e pecuária.

 

Comemora-se a independência de quem em 7 de setembro? A metade da população era escrava. E continuaram a chegar mais escravizados até 1850.

 

O Brasil continuou unificado, assistindo à fragmentação da América Espanhola, graças ao pacto corrupto entre monarquia e elite agrária, que não queria a abolição. A aristocracia tapou os olhos para o que acontecia no mundo. Tarde demais. A República e movimentos abolicionistas os atropelaram. Por sorte, continuaram com a cabeça grudada no pescoço. E nós, com a maldita herança de uma sociedade racista, escravocrata.

 

Marcelo Rubens Paiva -jornal "O Estado de São Paulo", edição de 21 de agosto de 2021.

Nos períodos abaixo, analise a substituição dos elementos sublinhados por pronomes oblíquos

 

I “Para entender a história brasileira, basta seguir o caminho da escravidão” — Para entendê-la, basta segui-lo.

 

Il. “Ordens religiosas possuiam escravos” — Ordens religiosas os possuiam.

 

III. “A Igreja foi conivente e usufruiu da escravidão que destruiu aldeias e nações milenares na África” — À igreja foi conivente e usufruiu da escravidão que destrui-as.

 

IV. “monarquia e elite agrária, que não queria a abolição” - monarquia e elite agrária, que não queriam-na.

 

Deram-se adequadamente e respeitando os preceitos da norma culta os períodos contidos em:

  1. apenas uma proposição.
  2. apenas duas proposições.
  3. apenas três proposições.
  4. nenhuma das proposições apresentadas.
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Gabarito

B

Comentário do professor

Gabarito: apenas I e II.

A resposta se sustenta por dois pontos fundamentais: regência verbal e colocação pronominal. É preciso identificar a transitividade dos verbos para escolher o pronome apropriado e posicioná‑lo conforme a norma culta.

No item I, os verbos entender e seguir são transitivos diretos, logo substitui‑se os complementos por pronomes de objeto direto. Assim, a história brasileira vira entendê‑la e o caminho da escravidão vira segui‑lo, forma correta com o pronome enclítico ao infinitivo.

No item II, possuir também é transitivo direto; escravos pode ser substituído por os. A colocação em próclise (os possuíam) é aceitável e respeita a norma culta; alternativamente, poderia aparecer em ênclise (possuíam‑nos).

Portanto, as reescrituras de I e II atendem à regência e à colocação pronominal corretas.

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