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Questão FC551985

Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não fala

Vozes (Voz Passiva e Voz Ativa)

IBAM · 2016

Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não falarei do desamparo que finamente me aperta os dedos na garganta. Não citarei o sentimento peculiar aos que têm propensão para o desengano e, mais do que nunca, ao crepúsculo, sentem-se traídos e ultrajados sem motivo. Não mais me referirei a estados de alma que nada contêm além de um vazio cinzento e interminável, um abismo de sombra e de abstrato, onde a tristeza rumina o seu cadáver.

Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos, como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo; choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras nada significam senão o prazer de proferi-las e achá-las bem achadas, não para que exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades. Mas sobretudo vivendo por conta própria.

Foi um ato irresponsável confiar-me a mim mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi. Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a imagem quebrada, e cem vezes traída.

Otto Lara Resende, texto publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, edição de 5/10/02,

disponível em [http://www.releituras.com/o/resende_balanco. asp].

"Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar".

A transposição do trecho acima para a voz passiva resultará na forma verbal:

  1. sendo-nos dada.
  2. ser silenciada.
  3. foi-nos dada.
  4. fora silenciada.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

"Deu-nos Deus a palavra." Na voz passiva analítica transforma-se em: "A palavra foi-nos dada por Deus." A forma verbal destacada corresponde a foi-nos dada.

Passos essenciais: identificar o objeto direto que vira sujeito da passiva (a palavra); converter o verbo deu para o particípio (dada); introduzir o verbo auxiliar ser no mesmo tempo do original (pretérito perfeito: foi).

O pronome nos mantém-se como complemento indireto e posiciona-se entre o auxiliar e o particípio (foi-nos dada).

Por fim, o particípio concorda em gênero e número com o novo sujeito (a palavra, feminino singular), justificando a forma foi-nos dada.

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