Questão FC552085
Texto: O FILÓSOFO DA PASSAGEM Recebo de Alexandrino de Souza, da Universidade Federal da Paraíba (UFP) , o pequeno e precioso livro de apresentação do projetoLivraria de Montaigne,
Linguagem
IBAM · 2020
Texto: O FILÓSOFO DA PASSAGEM
Recebo de Alexandrino de Souza, da Universidade Federal da Paraíba (UFP) , o pequeno e precioso livro de apresentação do projetoLivraria de Montaigne, exibido em João Pessoa no ano de 1999, e depois em 2007, na mesma UFP, e fruto de pesquisa na Biblioteca de Bordeaux, na França. Trata-se de um passeio pejo universo do pensador francês Michel de Montaigne (1533-1592). "Num tempo de intolerância, de banalização da violência, de desrespeito ao meio ambiente, é de todo atual o pensamento de um humanista que, observando a relatividade das coisas humanas, preconiza que a arte de viver deve se inspirar no bom senso, no espírito de tolerância, no respeito à natureza, na verdade e na justiça", diz, em seu inspirado prefácio, Neroaldo Pontes de Azevedo ex-reitor da universidade.
Por que reencontrar duas décadas depois, o projeto de Souza? A razão é simples: em nossos tempos tão tortuosos, ele se oferece corno estupenda porta de entrada ao pensamento de um escritor que, a cada século, se torna mais atual. Montaigne criticava a educação livresca baseada na memória. Ao contrário, valorizava, antes de tudo, a experiência. Seu amor pelos livros era uma coisa viva. Gomo se sabe, no ano de 1571 , aos 38 anos, o filósofo se retirou do mundo para um pequeno castelo, na Dordonha, na França. Em sua célebre torre, ele instalou um escritório que era também uma biblioteca. Dedicou-se, então, a redigir a maior parte de seus célebres Ensaios, que tiveram sua primeira edição em 1580.
Um amigo com quem eu comento meu interesse por Montaigne me diz, surpreso: "Mas só você mesmo! O mundo fervilhando e você voltado para o século XVI ". Esse amigo, me parece, está preso a um presente contínuo; um presente perpétuo, que nunca se esgota de onde não só o passado, mas também o futuro, estão banidos. Não será esse um dos males do século XXI? Para o filósofo, ao contrário, o mundo está em interminável movimento: "Não pinto o ser. O que pinto é a passagem". Para Montaigne, o Eu era a única forma que se abre para a filosofia e por isso se torna o centro de suas reflexões.
Volto ao delicado trabalho de Alexandrino de Souza, Que lembra: "Montaigne dizia que não havia tarefa mais difícil e penosa do que conhecer a si próprio''. Nada parecido com o Eu cheio de si, que brilha hoje nas redes sociais, na mídia e nas selfies. Continua: "Ele foi o primeiro autor moderno a alcançar, a partir de sua individualidade e experiência, uma dimensão universal''. Justamente o universal que hoje nos escapa e que está muito além de todas as selfies, blogs confessionais e páginas de Facebook.
Como via o homem detido nas ideias que foi capaz de formular ao longo dos séculos, Montaigne mandou gravar frases de grandes pensadores nas vigas que sustentavam sua biblioteca. Registrou, por exemplo, a célebre sentença do poeta romano Terêncio (185-159 a.C): '' Sou um homem e considero que nada de humano me é estranho''. Em uma época de especialização e de segmentação, essa frase nos leva de volta a uma vida mais completa, sem exclusões, assim como sem ilusões. Transcreveu, também, uma frase do médico e filósofo grego Sexto Empírico (séculos II e III d.C): ''Permaneço em dúvida''. Diante da febre das certezas e das pregações que atulham nossos dias, e que só levam ao fanatismo, só a dúvida pode nos guiar.
JOSÉ CASTELLO
Adaptado de http://rascunho.com.br/o-filosofo-da-passagem/,março/2019.
O trecho em que as ideias apresentadas estão organizadas por meio de um recurso de reiteração é:
- ''Num tempo de intolerância, de banalização da violência, de desrespeito ao meio ambiente, (1º parágrafo)
- Em sua célebre torre, ele instalou um escritório que era também uma biblioteca. (2º parágrafo)
- Esse amigo, me parece, está preso a um presente contínuo; um presente perpétuo, que nunca se esgota, (3º parágrafo)
- ''Ele foi o primeiro autor moderno a alcançar, a partir de sua individualidade e experiência, uma dimensão universal''. (4º parágrafo)
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Na frase indicada há uma clara utilização da reiteração por meio da repetição semântica: o autor apresenta duas expressões equivalentes, “presente contínuo” e “presente perpétuo”, que transmitem a mesma ideia.
Ao empregar termos próximos em sequência, o enunciador reforça e explicita a característica atribuída ao amigo, tornando a crítica mais incisiva. A construção com ponto e vírgula cria ritmo e destaca a retomada do sentido.
Portanto, a passagem funciona como recurso retórico que enfatiza a noção de um tempo presente imutável, evidenciando a intenção argumentativa do texto: mostrar a fixação do interlocutor num presente que exclui passado e futuro.
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