Questão FC552150
Uso minha carteirinha para o que chamam de medicina preventiva, fazendo jus à mensalidade que tenho pago por medo de precisar usar o que não poderei pagar. Eles bem sabem o quanto
Vocábulo "Que"
IBAM · 2015
O que é que houve?
Resolvi fazer um check-up. Havia tempo que não fazia e o redondo número de minha idade vinha ultimamente chamando a minha atenção para a cadeirinha do plano de saúde que carrego na carteira. Não tinha nenhum sintoma. Era apenas uma checagem para não vir a ter nenhum sintoma.
Entrei na sala para o primeiro exame:
— O que é que houve? — me perguntou o doutor.
A pergunta me pegou de surpresa. Fiquei envergonhada. Tive medo de parecer hipocondríaca.
— Nada. Apenas rotina.
O exame foi feito. Tudo normal. Saí da sala aliviada por minha ausência de manchas, mas um tanto constrangida por mobilizar a atenção daquele médico que poderia estar se dedicando a outros abdomens, que, doentes, esperam por suas imagens em filas gigantescas pelos hospitais da cidade.
Segui para o próximo. O laboratório parecia um shopping. Gente circulando, o café lotado, televisões ligadas, pessoas concentradas em seus celulares e revistas, parecendo esbanjar saúde. Entrei na sala e, mais uma vez, veio a pergunta:
— O que é que houve?
Parecia que eles tinham combinado. Tive vontade de sair correndo dali, cantando e dançando pra celebrar minha saúde. Não o fiz. Que Deus me livrasse, mas, àquela altura, eu também já queria ver se tinha alguma coisa. Mais uma vez, e com a graça de Deus, não tinha nada.
Saí do laboratório sentindo um alívio desconfortável e entrei no táxi pensando numa melhor maneira de responder à tal pergunta.
— O que é que houve, doutor? Tenho a sorte de poder pagar um bom plano de saúde. Por isso, acabo achando normal usar todo este equipamento e estes médicos bem formados para investigarem no meu abdômen a eventual possibilidade de eu vir a ter o sintoma que não tenho.
Uso minha carteirinha para o que chamam de medicina preventiva, fazendo jus à mensalidade que tenho pago por medo de precisar usar o que não poderei pagar. Eles bem sabem o quanto fico feliz em pagar mais do que uso porque obviamente me oferecem um produto que não quero precisar usar. De certa maneira, me dão a bênção de perder o que paguei. E, assim, sem nem sequer me dar conta, me vingo minimamente, fazendo exames de rotina enquanto outras pessoas morrem nas filas dos hospitais. É bem esquisito, não é, doutor?
(autoria: Denise Fraga, colunista do jornal Folha de São Paulo,
texto retirado do site: http://www 1. folha. uol. com. br/colunas/denisefraga/2015/ Data: 20/09/2015)
Ao analisar a frase “O que é que houve?’’, podemos dizer que a palavra sublinhada é classificada como:
- conjunção.
- pronome.
- verbo.
- preposição.
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Gabarito
A
Comentário do professor
Na frase “O que é que houve?” a palavra sublinhada funciona como conjunção empregada como partícula expletiva ou de realce.
Isso significa que o que não exerce função sintática essencial na oração; serve apenas para enfocar ou reforçar a pergunta. Sua presença é opcional e não altera o sentido básico.
Observe que a frase permanece correta e com o mesmo sentido sem essa palavra: “O que houve?”. Essa possibilidade de omissão é característica das partículas expletivas.
Por isso, embora não introduza uma oração subordinada, a classificação adotada pelo gabarito reconhece o que como conjunção em uso expletivo, isto é, como marcador de realce interrogativo.
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