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Questão FC552400

Texto IV - NOTÍCIA DE JORNAL Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socor

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBAM · 2023

Texto IV - NOTÍCIA DE JORNAL

 

Leio no jornal a notícia de que um homem morreu de fome. Um homem de cor branca, trinta anos presumíveis, pobremente vestido, morreu de fome, sem socorros, em pleno centro da cidade, permanecendo deitado na calçada durante setenta e duas horas, para finalmente morrer de fome.

 

Morreu de fome. Depois de insistentes pedidos de comerciantes, uma ambulância do Pronto Socorro e uma radiopatrulha foram ao local, mas regressaram sem prestar auxílio ao homem, que acabou morrendo de fome.

 

Um homem que morreu de fome. O comissário de plantão (um homem) afirmou que o caso (morrer de fome) era alçada da Delegacia de Mendicância, especialista em homens que morrem de fome. E o homem morreu de fome.

 

O corpo do homem que morreu de fome foi recolhido ao Instituto Médico Legal sem ser identificado. Nada se sabe dele, senão que morreu de fome. Um homem morre de fome em plena rua, entre centenas de passantes. Um homem caído na rua. Um bêbado. Um vagabundo. Um mendigo, um anormal, um tirado, um pária, um marginal, um proscrito, um bicho, uma coisa - não é homem. E os outros homens cumprem deu destino de passantes, que é o de passar. Durante setenta e duas horas todos passam, ao lado do homem que morre de fome, com um olhar de nojo, desdém, inquietação e até mesmo piedade, ou sem olhar nenhum, e o homem continua morrendo de fome, sozinho, isolado, perdido entre os homens, sem socorro e sem perdão.

 

Não é de alçada do comissário, nem do hospital, nem da radiopatrulha, por que haveria de ser da minha alçada? Que é que eu tenho com isso? Deixa o homem morreu de fome.

 

E o homem morre de fome. De trinta anos presumíveis. Pobremente vestido. Morreu de fome, diz o jornal. Louve-se a insistência dos comerciante, que jamais morrerão de fome, pedindo providências às autoridades. As autoridades nada mais puderam fazer senão remover o corpo do homem. Deviam deixar que apodrecesse, para escalamento dos outros homens. Nada mais puderam fazer senão esperar que morresse de fome.

 

E ontem, depois de setenta e duas horas de inanição em plena rua, no centro mais movimentado da cidade do Rio de Janeiro, um homem morreu de fome.

 

Morreu de fome.

 

(SABINO, Fernando. A mulher de vizinho. 17 ed. Rio de Janeiro. Record, 1997)

 

No texto IV, a ação das autoridades revela:

  1. filantropia.
  2. agressividade.
  3. intolerância.
  4. indiferença.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A alternativa correta, indiferença, decorre da atitude das autoridades que ignoram o pedido de socorro e transferem responsabilidades, sem prestar qualquer auxílio efetivo.

O texto descreve que a ambulância e a radiopatrulha “regressaram sem prestar auxílio”, o comissário afirma que não é de sua alçada e o corpo é apenas removido ao Instituto Médico Legal. Esses fatos mostram reação passiva diante de sofrimento evidente.

A repetição de “morreu de fome” e a ênfase nas setenta e duas horas intensificam o caráter frio e negligente da resposta institucional. Não há ação para evitar a morte, apenas procedimentos burocráticos depois do óbito.

Assim, a conduta das autoridades revela claramente uma postura de indiferença perante a vida e a dignidade do indivíduo.

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