Questão FC552443
Texto 2 CONSTRUÇÃO Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido S
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBAM · 2023
Texto 2
CONSTRUÇÃO
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passado bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Chico Buarque. Álbum Construção. 1971.
Construção é uma música do escritor e compositor Chico Buarque, gravada em 1971 para o álbum que leva o mesmo nome. Após a leitura atenta da canção de Chico Buarque, percebe-se que todos os versos terminam com palavras proparoxítonas. São proparoxítonas que se intercalam nos 41 versos que compõem a canção. Essas palavras possuem um efeito: os sons iguais que se causam uma unidade rítmica. O texto se constrói a partir da troca de posição dos mesmos termos de uma estrofe nas outras.
Esse efeito alinha-se ao tema canção porque
- demonstra que o trabalho do operário é desnecessário.
- a construção é bastante segura e imponente.
- sustenta as ações que passam na canção: percurso operário ao longo do dia.
- mostra que a vida é esdrúxula.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
O emprego repetido de proparoxítonas cria um ritmo regular e percussivo que dá à canção uma unidade sonora e motora. Esse compasso fixo organiza o fluxo dos versos e conduz a escuta.
Ao manter sempre a mesma terminação acentuada, Chico traduz em som a repetição do trabalho: passos, pausas e gestos que se repetem ao longo do dia. A troca de termos entre estrofes reapresenta as mesmas ações em diferentes momentos, como se fossem etapas sucessivas.
Desse modo, o procedimento formal sustenta a narrativa do percurso operário, marcando o passar do tempo e o desgaste físico que termina na queda final. O efeito sonoro, portanto, não só embeleza, mas também estrutura o sentido da canção.
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