Questão FC552444
Texto 2 CONSTRUÇÃO Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido S
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBAM · 2023
Texto 2
CONSTRUÇÃO
Amou daquela vez como se fosse a última
Beijou sua mulher como se fosse a última
E cada filho seu como se fosse o único
E atravessou a rua com seu passo tímido
Subiu a construção como se fosse máquina
Ergueu no patamar quatro paredes sólidas
Tijolo com tijolo num desenho mágico
Seus olhos embotados de cimento e lágrima
Sentou pra descansar como se fosse sábado
Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe
Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago
Dançou e gargalhou como se ouvisse música
E tropeçou no céu como se fosse um bêbado
E flutuou no ar como se fosse um pássaro
E se acabou no chão feito um pacote flácido
Agonizou no meio do passeio público
Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego
Amou daquela vez como se fosse o último
Beijou sua mulher como se fosse a única
E cada filho seu como se fosse o pródigo
E atravessou a rua com seu passado bêbado
Subiu a construção como se fosse sólido
Ergueu no patamar quatro paredes mágicas
Tijolo com tijolo num desenho lógico
Seus olhos embotados de cimento e tráfego
Sentou pra descansar como se fosse um príncipe
Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo
Bebeu e soluçou como se fosse máquina
Dançou e gargalhou como se fosse o próximo
E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público
Amou daquela vez como se fosse máquina
Beijou sua mulher como se fosse lógico
Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
Sentou pra descansar como se fosse um pássaro
E flutuou no ar como se fosse um príncipe
E se acabou no chão feito um pacote bêbado
Morreu na contramão atrapalhando o sábado
Chico Buarque. Álbum Construção. 1971.
A leitura integral do texto demonstra que as ações do operário são
- uma grande criatividade.
- uma esperança de um futuro melhor.
- uma alienação causada pela bebida.
- uma mecanização.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Mecanização é a melhor leitura do poema porque o trabalhador aparece tratado como máquina, isto é, transformado em operação repetida e desumanizada.
O recurso mais direto é o símile "como se fosse máquina", repetido e refletido em outras imagens de rotina, como "tijolo com tijolo" e "olhos embotados de cimento", que reforçam o ritmo mecânico do trabalho.
A anáfora "como se fosse" aplica-se a atos distintos, tornando-os uniformes; essa repetição cria um efeito de automatismo e perda de singularidade do sujeito.
O resultado é a desumanização: o operário deixa de ser pessoa com interioridade para funcionar como peça de um processo produtivo, o que justifica interpretar as ações como mecanização.
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