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Questão FC552445

Texto 2 CONSTRUÇÃO Amou daquela vez como se fosse a última Beijou sua mulher como se fosse a última E cada filho seu como se fosse o único E atravessou a rua com seu passo tímido S

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBAM · 2023

Texto 2

 

CONSTRUÇÃO

 

Amou daquela vez como se fosse a última

Beijou sua mulher como se fosse a última

E cada filho seu como se fosse o único

E atravessou a rua com seu passo tímido

 

Subiu a construção como se fosse máquina

Ergueu no patamar quatro paredes sólidas

Tijolo com tijolo num desenho mágico

Seus olhos embotados de cimento e lágrima

 

Sentou pra descansar como se fosse sábado

Comeu feijão com arroz como se fosse um príncipe

Bebeu e soluçou como se fosse um náufrago

Dançou e gargalhou como se ouvisse música

 

E tropeçou no céu como se fosse um bêbado

E flutuou no ar como se fosse um pássaro

E se acabou no chão feito um pacote flácido

Agonizou no meio do passeio público

Morreu na contramão, atrapalhando o tráfego

 

Amou daquela vez como se fosse o último

Beijou sua mulher como se fosse a única

E cada filho seu como se fosse o pródigo

E atravessou a rua com seu passado bêbado

 

Subiu a construção como se fosse sólido

Ergueu no patamar quatro paredes mágicas

Tijolo com tijolo num desenho lógico

Seus olhos embotados de cimento e tráfego

 

Sentou pra descansar como se fosse um príncipe

Comeu feijão com arroz como se fosse o máximo

Bebeu e soluçou como se fosse máquina

Dançou e gargalhou como se fosse o próximo

 

E tropeçou no céu como se ouvisse música

E flutuou no ar como se fosse sábado

E se acabou no chão feito um pacote tímido

Agonizou no meio do passeio náufrago

Morreu na contramão atrapalhando o público

 

Amou daquela vez como se fosse máquina

Beijou sua mulher como se fosse lógico

Ergueu no patamar quatro paredes flácidas

Sentou pra descansar como se fosse um pássaro

E flutuou no ar como se fosse um príncipe

E se acabou no chão feito um pacote bêbado

Morreu na contramão atrapalhando o sábado

 

Chico Buarque. Álbum Construção. 1971.

 

A vida do operário é marcada pela indiferença: a sociedade não o reconhece, não o prestigia, não o amparas no entanto, há uma parte dos versos que rompe com essa invisibilidade social.

 

Assinale a opção em que os três versos mostrem esse rompimento.

  1. Amou daquela vez como se fosse a última/ Amou daquela vez como se fosse o último// Amou daquela vez como se fosse máquina
  2. E se acabou no chão feito um pacote flácido/ E se acabou no chão feito um pacote tímido/ E se acabou no chão feito um pacote bêbado
  3. Ergueu no patamar quatro paredes sólidas/ Ergueu no patamar quatro paredes mágicas/ Ergueu no patamar quatro paredes flácidas
  4. Morreu na contramão atrapalhando o tráfego/ morreu na contramão atrapalhando o público/ morreu na contramão atrapalhando o sábado.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Os três versos da alternativa mostram o rompimento da invisibilidade porque transformam a morte do operário em um evento que interrompe a rotina social: morreu na contramão atrapalhando o tráfego, ... o público, ... o sábado.

A repetição de morreu na contramão cria anáfora, enquanto a variação dos complementos amplia progressivamente o alcance do impacto: do fluxo urbano (tráfego) para a coletividade presente (público) e finalmente para o tempo de repouso e lazer (sábado). Isso faz com que o operário deixe de ser mero figurante.

O verbo atrapalhando confere ironia e agência: a morte é o facto que obriga reconhecimento. Assim, o verso converte invisibilidade em visibilidade e critica a indiferença social.

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