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Questão FC552458

- Olá, meu cunhado - disse a onça - queria saber se você é tão forte quanto eu. Eu quebro tudo o que vejo na minha frente. Você quer ver?

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBAM · 2023

Texto 2

A onça valentona e o raio poderoso

Povo Taulipang

Os velhos do povo Taulipang contam que, antigamente, lá no início dos tempos, (...) a onça era muito metida a besta. Gostava de aparecer e amedrontar todo mundo, todos os animais. Fazia isso para poder se alimentar, mas fazia também para convencer a todos que ela era a mais poderosa do lugar.

Um dia ela encontrou um moço muito formoso à beira de um rio. Ele estava preparando um bastão. Sua distração era tanta que nem percebeu a onça aproximar-se às suas costas.

Ela chegou, então, de supetão e lançouse sobre o estranho. Embora ela quisesse devorá-lo, não o fez naquele momento, pois antes queria humilhar sua presa. Por isso a onça apenas passou por cima do moço que permaneceu impassível. Ele apenas levantou os olhos e a cumprimentou.

- Olá, meu cunhado - disse a onça - queria saber se você é tão forte quanto eu. Eu quebro tudo o que vejo na minha frente. Você quer ver?

Nem esperou a resposta de Raio, como se chamava o moço. Imediatamente subiu na árvore carimbé e a quebrou totalmente. Foi sobre a árvore paricá e a estraçalhou com sua força descomunal. Desceu ao chão e cavou com suas garras, destruindo tudo à sua frente.

- Viu como sou forte, meu cunhado? Sou forçuda. Nada pode me deter. Agora eu quero ver sua força.

Raio permaneceu imóvel onde estava.

Apenas comentou:

- Não sou forte como você, cunhada. Não tenho a força.

Não convencida, a onça mostrou mais uma vez sua força soltando fortes urros que foram ouvidos por toda a terra. Subiu em outras árvores e as destruiu sem dó nem piedade.

Quando acabou sua demonstração e em prova de sua coragem, sentou-se de costas para Raio. Ele levantou-se de seu lugar e passou a agitar seu bastão produzindo faíscas, trovões, trovoadas, coriscos e toda sorte de barulho. Atordoada, a onça despencou no chão. Raio a pegou pelas pernas e a atirou bem longe dali.

Não sabendo o que pensar, a onça começou a fugir tentando encontrar um abrigo para se esconder. No entanto, para onde quer que corresse, Raio ia até ela e a descobria: ela correu para esconder-se nos rochedos, Raio foi lá e partiu os rochedos ao meio; ela subia nas árvores, Raio mandava seus raios sobre elas e as queimava inteiras obrigando a onça a procurar novos lugares. Ela enfiou-se no buraco do tatu gigante, Raio abriu a terra com seus raios poderosos e a fez fugir.

Eram tantos os poderes daquele jovem que apareceram chuvas, ventos, coriscos e deixaram tudo muito frio. Tão frio que a onça não podia mais correr para lugar nenhum.

Quando Raio viu a onça toda encolhida e medrosa, deitada sobre o próprio rabo, encaminhou-se para ela e ergueu as mãos como se fosse mandar um raio direto no coração do bichano. Mas não foi o que aconteceu. Na verdade, Raio parou diante do bicho todo acuado.

- Você viu, minha cunhada? Eu tenho a força muito maior do que a sua e nada pode me parar. E melhor que você não queira se achar toda poderosa antes de conhecer seu adversário.

Agora eu vou embora, mas você sempre vai lembrar de mim.

Já toda envergonhada e cabisbaixa, a onça foi para sua casa.

Dizem os velhos desse povo, que é por isso que, até hoje, a onça tem tanto medo de trovoada. E que dentro dela mora a lembrança da existência do poderoso Raio.

(MUNDURUKU, Daniel. Contos indígenas brasileiros. 2. ed. São Paulo, Global, 2005)

 

A respeito do uso do discurso indireto em “A onça valentona e o raio poderoso”, pode-se dizer que:

  1. é um recurso estilístico introduzido pelo uso do travessão para indicar as falas da protagonista e do anatagonista.
  2. evidencia a perpectiva do narrador - personagem, introduzindo sua opinão a respeito dos fatos relatados.
  3. reforça o carácter cíclino e anacestral dos mitos, uma vez que ocorre no primeiro e no último parágrafos, apresentando a fala dos antigos do povo.
  4. ocorre de  maneira recorrente ao longo do texto, comprovando serem fatos históricos as ações narradas
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

Discurso indireto é quando o narrador relata as falas sem reproduzi-las literalmente, usando verbos como contam e dizem. No conto, essas marcas aparecem no primeiro e no último parágrafos: o narrador atribui a voz aos velhos do povo, situando a narrativa como tradição transmitida.

Ao abrir e fechar a história com essa voz ancestral, o texto cria um efeito de enquadramento: começa na memória coletiva e retorna a ela, como se o mito circulasse continuamente entre gerações.

Essa estrutura reforça o caráter cíclico e ancestral do mito, pois não se trata de um fato histórico isolado, mas de um saber repetido e reatualizado pela comunidade, legitimado pela autoridade dos anciãos.

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