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Questão FC552477

Texto: O OLHAR O olho tem um papel determinante para a espécie humana. Há um grande consenso sobre a importância da visão para a conformação do nosso cérebro. O uso de patas diante

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBAM · 2022

Texto: O OLHAR

 

O olho tem um papel determinante para a espécie humana. Há um grande consenso sobre a importância da visão para a conformação do nosso cérebro. O uso de patas dianteiras como mãos teria levado ao desenvolvimento da visão que, por sua vez, teria propiciado o desenvolvimento do maior e mais complexo cérebro encontrado em todas as espécies animais. Mas essa importância efetiva não nos faz outorgar à visão uma reflexão proporcional. A nossa sociedade não nos ensina a olhar, pelo menos não formalmente, e isso repercute na nossa absoluta inconsciência sobre a forma como vemos.

 

Para interpretar, usamos modelos, categorias e processos cognitivos aprendidos no meio no qual fomos socializados. É isso que, no século XVII, o padre Antônio Vieira afirmara num sermão ao dizer "o olho não vê coisas, mas imagens de coisas que significam outras coisas". Entre o olho e as coisas estão as imagens, que são o resultado da forma como fomos ensinados a olhar, pois um fato é o olho como órgão receptor e, outro, o olhar. Simplificando, podemos dizer que o olho apenas é, e o olhar é fabricado para ver certas coisas, mas igualmente para não ver outras. Não basta termos olhos, termos luz, termos objetos; para se ver, é preciso querer ver. A evolução da visão humana obedeceu a fins práticos, vendo-se aquilo que era útil ver.

 

As formas de ver foram se modificando e adquirindo particularidades. Os diários e crônicas dos padres e conquistadores da América dos séculos XVI e XVII são um excelente material para entender a forma específica de ver desse período. Referindo-se especificamente a Colombo, a pesquisadora Janice Theodoro afirma que ele via "mais com a imaginação do que com a vista". Em primeiro lugar, era um olhar apenas para as afinidades, ou seja, vendo ou as semelhanças ou as diferenças entre os chamados índios e os espanhóis. Em segundo lugar, se tratava de um olhar que procurava indícios: Colombo tinha uma hipótese a ser comprovada e tudo aquilo que servia nessa empreitada era descrito, não mencionando nada daquilo que não podia ser identificado (a flora, por exemplo). Em terceiro lugar, se tratava de um ver o que devia ser e não o que efetivamente era. Finalmente, era um olhar que se bastava com as aparências.

 

A ênfase na aparência fala-nos de uma profunda suposição prévia de que o europeu conhecia o Outro, assim sendo, não havia necessidade de aprofundamento. Este achar que já se conhece o Outro porque ele, no fundo, não é Outro (nega-se a alteridade) é evidente no episódio narrado por Joan Bestard e Jesus Contreras , antropólogos espanhóis, sobre o surgimento do nome  Yucatán para a conhecida península mexicana. Quando perguntaram aos nativos sobre o nome do lugar, estes teriam respondido algo que os colonizadores entenderam como Yucatán, e assim denominaram o lugar. Na verdade, o que eles disseram em sua língua foi "não te entendo", mas os espanhóis não conseguiam entender que os indígenas, em um língua própria deles e desconhecida pelos europeus, pudessem não os entender.

 

Este exemplo demonstra muito bem como o esquema cognitivo é o que permite (ou não) a leitura de uma realidade observada. A identidade (e não a alteridade) compunha o essencial do esquema cognitivo do europeu até o século XVII.

 

URPI MONTOYA URIARTE

Adaptado de joumais.openedition.org.

 

Também com base na argumentação da autora, "olhar" tem sentido equivalente ao da seguinte palavra do texto:

  1. desenvolvimento (1º parágrafo)
  2. imaginação (3º parágrafo)
  3. suposição (4º parágrafo)
  4. leitura (5º parágrafo)
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Gabarito

D

Comentário do professor

"Leitura" é a escolha correta porque no texto olhar não se refere apenas ao órgão biológico, mas ao modo de interpretar e dar sentido ao que se vê. A autora distingue "olho" (função física) do olhar enquanto construção social e cognitiva.

Isso fica explícito quando afirma que entre o olho e as coisas estão as imagens produzidas pelos nossos modelos de interpretação. Assim, leitura captura com precisão a ideia de um ato interpretativo, seletivo e aprendido.

O exemplo de Yucatán ilustra como esse processo de leitura pode falhar por preconceito ou desconhecimento, negando a alteridade e impondo uma interpretação equivocada.

Portanto, no contexto argumentativo, olhar corresponde semanticamente a leitura, isto é, à forma construída de ver, perceber e interpretar a realidade.

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