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Questão FC552500

A narrativa ainda descreveu uma escola de presença diária, sem aulas virtuais. "Todos os dias", a expressão parecia inacreditável. Como alguém aguentava? De fato, nenhum dos netos

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBAM · 2022

FAZ POUCO TEMPO

 

"Faz pouco tempo, parece que foi ontem", diz o avô aos netos adolescentes.

 

Os três jovens sabiam que essa frase introduzia uma chuva de memórias e que deveriam ouvi-las porque amavam o avô e porque os pais estavam por perto para garantir a fidelidade às raízes. Com a supervisão do olhar paterno e materno e um pouco de impulso afetivo, eles chegam mais perto do velho senhor.

 

– Como era?

 

– Ah, meninos, era outra época. A gente não fazia exames com cotonetes nas narinas e ninguém usava máscara.

 

Os netos se entreolharam. Seria o início da senilidade quando a memória fica mais liberta dos fatos reais? Voltaram a entreolhar-se de forma cúmplice e continuaram dispostos a ouvir o pai do pai.

 

– Vou um pouco mais para trás. Não existiam celulares e fazíamos poucas fotos. As pessoas conversavam umas com as outras sempre que saíam.

 

Agora sim: os netos tinham certeza de que a saúde mental do patriarca estava em declínio absoluto. Como sair sem celular? Como não fotografar tudo? Sobre o que poderiam conversar as pessoas se nao tivessem redes sociais? Duvidaram, ainda mais, da lucidez do avô, especialmente no exato momento em que o olhar do pai ficou mais vigilante do outro lado da sala.

 

O senhor de cabelos brancos falou daquele quase paleolítico inferior. Descreveu um mundo de barbárie absoluta com discos comprados em lojas, sem internet e, como único sistema de delivery de comida, um padeiro e um leiteiro que deixavam as coisas em casa pela manhã. O mais novo perguntou:

 

– Mas... pedia pelo aplicativo, vô?

 

O senhor não respondeu à pergunta. Estava imerso naquela melancolia que colabora para tornar o passado brilhante à medida que dele nos distanciamos. Falou de cartas escritas a mão, envelopes com selos, ligações interurbanas caríssimas para a Europa, uma televisão por família, carros que duravam muitos anos em cada casa, eletrodomésticos que eram dados de presente no dia do casamento e eram trocados, por vezes, nas bodas de prata.

 

– A gente consertava as coisas: sapatos, batedeiras, casamentos... Não se jogava fora ao primeiro sinal de fadiga de material.

 

Consertar um calçado era algo muito estranho aos três netos. Quando o tênis rasgava, era o momento de trocá-lo, ou até antes. Chocavam-se dois modelos de capitalismo entre as gerações ali em debate. Todavia a narrativa estranha daquele mundo muito antigo, quase uma Idade das Trevas tecnológicas, seduzia um pouco eles.

 

– Entre 1970 e 1986, eu e sua avó tivemos o mesmo aparelho de telefone fixo, depois, ela inventou de comprar um modelo novo e começou a trocar.

 

Dezesseis anos com um aparelho? Júlia nunca tinha conseguido ter um por muito tempo. Dezesseis anos eram dois a mais do que toda a vida dela. Como se ela tivesse recebido um celular ao nascer e, incrível, ainda o usasse! A menina estava realmente espantada que sua família tivesse sobrevivido a um mundo assim!

 

A narrativa ainda descreveu uma escola de presença diária, sem aulas virtuais. "Todos os dias", a expressão parecia inacreditável. Como alguém aguentava? De fato, nenhum dos netos conseguia supor aquela época contemporânea das pirâmides do Egito. Era concebível? As pessoas, desesperadas, não se atiravam das pontes pelo vazio da sociedade sem smartphones?

 

Já fazia trinta minutos que o senhor descrevia, com alguma idealização, o passado. Eram dois mundos incomunicáveis.

 

O horário do almoço se aproximava e os pais entraram na sala para dar liberdade provisória aos netos. O velho senhor encerrou a história com a revelação final: não havia tomadas ao lado da cama na infância dele. Por vezes, uma única, ocupada pelo abajur. "Sem tomadas ao lado da cama?" Agora, a narrativa tinha se tornado mística em excesso.

 

Os três almoçaram felizes por terem se livrado de nascer em época tão atrasada.

 

– Faz pouco tempo! exclamou o avô, balançando a cabeça com saudade.

   

Leandro Karnal. Jornal "O Estado de São Paulo", edição de 13.2.2022. Compilado.    

 

Avalie as asserções feitas sobre o texto.

 

I. O texto contrapõe diferenças geracionais relacionadas a costumes e comportamentos, o que se torna nítido nos excertos "Chocavam-se dois modelos de capitalismo entre as gerações" e "Eram dois mundos incomunicáveis".

 

II. Leandro Karnal, em seu texto, utiliza-se frequentemente de elementos de ironia para acrescentar-lhe humor. Podemos corroborar essa afirmação nas seguintes passagens: "O senhor de cabelos brancos falou daquele quase paleolítico inferior" e "os pais entraram na sala para dar liberdade provisória aos netos".

 

III. Inferimos do texto que o avô descrevia com total isenção a sociedade na qual estava inserido em sua juventude. Seus relatos eram fundamentados no real e não no ideal.

 

IV. A comparação entre a geração do avô e a dos netos pode se dar no seguinte sentido: a primeira pautava-se pela durabilidade de instituições e objetos, a segunda, por sua vez, pela naturalidade com que se procedem descartes.

 

Pode ser considerada inferência de sua leitura o afirmado em:

  1. uma proposição apenas.
  2. duas proposições apenas.
  3. três proposições apenas.
  4. todas as proposições apresentadas.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A alternativa C é correta porque as proposições I, II e IV podem ser inferidas do texto.

I: o texto contrapõe gerações ao destacar costumes distintos; o narrador aponta diferenças concretas como formas de comunicação, consumo e convívio, reforçadas por expressões como "Chocavam-se dois modelos de capitalismo entre as gerações" e "Eram dois mundos incomunicáveis", o que confirma a oposição geracional.

II: há uso recorrente de ironia para efeito humorístico; exemplos como "quase paleolítico inferior" e "dar liberdade provisória aos netos" apresentam tom irônico que suaviza a crítica e gera riso.

IV: o contraste entre durabilidade e descartabilidade está presente: a geração do avô valoriza consertos e longevidade de objetos e instituições, enquanto a dos netos aceita o descarte rápido, como ilustrado pela reação ao conserto de sapatos e à longevidade de aparelhos.

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