Questão FC552534
DEIXA O ALFREDO FALAR! A arte brasileira da conversa não é de fácil aprendizado. Como toda arte, exige antes de mais nada uma verdadeira vocação. E essa vocação se aprimora ao long
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBAM · 2021
DEIXA O ALFREDO FALAR!
A arte brasileira da conversa não é de fácil aprendizado. Como toda arte, exige antes de mais nada uma verdadeira vocação. E essa vocação se aprimora ao longo do caminho que vai da inocência à experiência. Como em toda arte.
Distinga-se: quando falo em conversa, não estou me referindo à lábia, à astúcia, à solércia do brasileiro no passar a bicaria e vender o seu peixe. Falo precisamente no bate-papo, erigido numa das mais requintadas instituições nacionais.
Mas por que arte brasileira? Os outros povos acaso não batem papo? A própria expressão, brasileiríssima, corresponde em inglês exatamente ao verbo “to chat.” Até os ingleses, meu Deus, os ingleses têm também o seu papo: um deles, na mesa do bar, olha para fora e diz que vai chover; meia hora depois outro diz que não vai chover; meia hora depois o terceiro se retira dizendo que não gosta de discussão. A falta de graça desta velha anedota não está em ser velha, mas na finalidade útil que fez murchar o papo. Este não deve ter finalidade alguma, senão a de matar o tempo da melhor maneira possível. É coisa de latino em geral e de brasileiro em particular: fazer da conversa não um meio, mas um fim em si mesmo. Se não me engano, essa é a distância que separa a ciência da arte.
No papo bem batido, a discussão não passa de uma motivação, sem intuito de convencer ninguém, nem de provar que se tem razão. Os que nela se envolvem devem estar sempre prontos a reconhecer, no íntimo, que poderiam muito bem passar a defender o ponto-de-vista oposto, desde que os que O defendem fizessem o mesmo. Os temas devem ser de uma apaixonante gratuidade, a ponto de permitir que, no desenrolar da conversa, de súbito ninguém mais saiba o que se está discutindo. Mesmo nas eternas discussões sobre mulher, religião ou futebol, para que se constituam em bate-papo, longas digressões hão de ser admitidas, desde que pertinentes.
Compilado e adaptado. Crônica de Fernando Sabino.
Analise as afirmações abaixo.
I. Para o autor a analogia entre a conversa e a arte se dá no seguinte sentido: ambas derivam de uma vocação que, vale ressaltar, aprimora-se com a experiência.
II. Fernando Sabino define conversa como a astúcia do brasileiro em vender seu peixe, em outras palavras, sua habilidade inata de convencimento.
Ill. O bate papo, de acordo com o texto, invariavelmente se estabelece com uma finalidade específica - a do convencimento alheio.
Representa uma inferência possível da leitura do texto o afirmado em:
- I, apenas.
- Ill, apenas.
- ll e lll, apenas.
- I, ll e lll.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A afirmativa I é correta. No início do texto o autor estabelece a comparação explícita entre conversa e arte, ao afirmar que a "arte brasileira da conversa não é de fácil aprendizado" e que, "como toda arte, exige antes de mais nada uma verdadeira vocação".
Em seguida reforça que essa vocação "se aprimora ao longo do caminho que vai da inocência à experiência", o que deixa claro o sentido da analogia: a conversa, assim como a arte, nasce de uma inclinação inicial e melhora com prática e vivência.
Portanto, inferir que a relação entre conversa e arte se dá pela ideia de uma vocação aperfeiçoada pela experiência corresponde diretamente ao que o texto afirma.
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