Questão FC552590
Texto CHINA E O FETICHE DA DEMOCRACIA Anos atrás, li um artigo de um sociólogo chinês que afirmava considerar interessante o culto à democracia no Ocidente. Apesar de partilhar com
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBAM · 2020
Texto
CHINA E O FETICHE DA DEMOCRACIA
Anos atrás, li um artigo de um sociólogo chinês que afirmava considerar interessante o culto à democracia no Ocidente. Apesar de partilhar com meus conterrâneos ocidentais a crença de que a democracia é, de longe, o menos ruim dos regimes conhecidos (por limitar o poder e não porque exista alguma forma de sabedoria popular), com todas suas mazelas, achei interessante um sociólogo fazer esse julgamento.
É óbvio que, em alguns séculos, talvez a democracia tenha passado, e nossos descendentes julguem peculiar nossa fé num sistema altamente volátil e comparem essa nossa fé à antiga fé de se ler presságios nas vísceras dos animais: tão irracional quanto.
A China é o grande desafio histórico do mundo contemporâneo. Não me refiro tanto aos jovens chineses que frequentam universidades e seus professores: esses são a mesma coisa no mundo inteiro, uma elite chique, acostumada a privilégios, que no fundo tem nojinho de gente pobre e ignorante.
Refiro-me à população comum, que não fez universidade ou, se o fez, o fez apenas com objetivos técnicos de sobrevivência. Tive a chance, recentemente, de falar com pessoas assim na China e de entender um pouco alguns meandros desse gigante econômico, que poderá pôr em dúvida a relação, supostamente considerada como essencial, entre sociedade de mercado (e o enriquecimento em larga escala que ela gera) e democracia liberal.
Uma das coisas que mais me chamam a atenção nesse estrato da população, com quem você pode conversar se não considerar gente “comum” um asno – como o fazem, corriqueiramente, os membros da minha tribo – é um certo desinteresse profundo pela ideia de democracia.
Ouvi de uma mulher de cerca de 30 anos, cujo marido acabou de abrir um pequeno restaurante num shopping chique tipo JK Iguatemi em Pequim, que estão trabalhando como loucos para fazer dar certo, que não querem a vida inquieta e infeliz que seus irmãos de Hong Kong têm. Manifestações nas ruas, interrupção do cotidiano e insegurança. Segundo ela, a vida na China é tranquila, feliz e segura.
A comparação com Hong Kong é significativa se lembrarmos que a região vive instabilidade há meses.
A ideia de que trocamos facilmente liberdade por estabilidade é fato. O amor à democracia é um fetiche.
O desafio que a China nos coloca é se de fato a democracia é fundamental para se viver materialmente bem. Homens e mulheres tendem a optar pela segurança material em detrimento de formas mais “abstratas” de bem-estar.
Compilado e adaptado. Luiz Felipe Pondé, jornal "Folha de São Paulo", edição de 6/1/2020.
Leia as asseverações feitas sobre o texto.
I. Pondé, assim como o sociólogo chinês mencionado no primeiro parágrafo, compartilham a crença de que a democracia é, de longe, o menos ruim dos regimes conhecidos.
II. Afirmar que a democracia é altamente volátil é uma forma de ratificar a crença geral de que é um sistema político estável e globalmente consolidado.
III. Depreendemos da leitura do que a população chinesa questiona se é efetivamente essencial o enriquecimento em larga escala propiciado pela sociedade de mercado.
IV. O autor avalia que o desafio imposto a nós pela China se faz no seguinte sentido: seria a democracia fundamental para a nossa segurança material? Ainda, segundo ele, as pessoas apresentam a tendência de optar pela segurança material em lugar de formas mais abstratas de bem-estar.
Representa inferência possível de sua leitura o afirmado em:
- uma proposição apenas.
- duas proposições apenas.
- três proposições apenas.
- todas as proposições apresentadas.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A proposição IV é correta porque sintetiza com fidelidade a conclusão do texto. O autor coloca como desafio a pergunta sobre a relação entre democracia e bem-estar material, isto é, se a democracia é fundamental para garantir a segurança econômica e a tranquilidade do cotidiano.
O encerramento do texto afirma explicitamente que há uma tendência humana de priorizar a segurança material em vez de bens políticos mais intangíveis. Essa ideia é o núcleo do argumento: a preferência por estabilidade e prosperidade pode suplantar o desejo por liberdades políticas abstratas.
Portanto, a assertiva IV reflete diretamente o pensamento final do autor ao indicar que a China desafia a crença de que democracia e enriquecimento em larga escala são inseparáveis, mostrando a opção pelo bem-estar material.
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