Questão FC552620
Leia o texto abaixo para responder à questão. Psicanalistas, psicoterapeutas e aqueles que de alguma forma lidam com o sofrimento psíquico são unânimes em reconhecer que o "final d
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBAM · 2019
Leia o texto abaixo para responder à questão.
Psicanalistas, psicoterapeutas e aqueles que de alguma forma lidam com o sofrimento psíquico são unânimes em reconhecer que o "final do ano" é uma época particularmente perigosa. Talvez a "loucura" desse período devesse ser incluída nas síndromes traumáticas do cotidiano – ao lado da angústia de domingo à noite e da euforia vazia e efêmera das sextas-feiras. Essas ocasiões estão associadas à situações de risco social iminente pela ruptura da rotina da organização do tempo e pela variação caótica de encontros desejados e indesejados que pode desencadear.
Assim como as sextas e as segundas-feiras, o final de ano marca um ponto de passagem, mas diferentemente das duas primeiras, sua localização temporal é indeterminada. Para alguns o período começa em novembro, para outros, na semana do Natal, há ainda aqueles que confundem a loucura de fim de ano com complexo das férias perfeitas. Estabelece-se assim uma sequência de retraumatizações que às vezes só se resolvem pela pacificação representada pelo reinicio do ano. Aliás, também o início desse novo ciclo parece representar mais um estado de ânimo que uma data precisa no calendário.
Adormecida, a loucura de fim de ano permanece latente até ser acordada pelas campanhas publicitárias e o apelo às compras. E assim é com o sofrimento neurótico em geral, como não se sabe de onde ele veio espera-se que vá embora por si mesmo. Nessa época convivem dois sentimentos opostos de que algo já se faz presente, mas ainda não vigora plenamente, como se não houvesse chegado sua hora. Por isso teremos esse período – e também o esperamos ardentemente. Seu retorno insidioso, ano após, traz à luz as mais fortes experiências infantis. As lembranças de tantos desejos se apossam de nós combinando a saudade e a fantasmagoria do passado. O esforço para nos reunirmos e comemorar nos coloca sempre uma pergunta silenciosa, afinal por que nessa época não me sinto tão feliz como deveria? Por que surge essa angústia às vezes crônica, às vezes aguda? Recordar, repetir e elaborar – eis a difícil travessia que o final do ano nos propõe. Esses três movimentos que coordenam o tratamento psicanalítico são exigidos de forma concentrada e assistemática ao término de cada ciclo de 12 meses.
Imaginemos que no final do ano – assim como nos fins de semana, em menor escala – temos de nos haver com a difícil tarefa de reconstruir narrativamente vivências passadas de tal forma que elas se completem como uma experiência da qual possamos nos apropriar. A perda progressiva da experiência tornou-se a tal ponto um problema que muitas vezes recorremos aos discursos pré-fabricados nas reuniões e festas de Natal.
Compilado - "Fantasmas do final de ano" - Christian Ingo Lenz Dunke, Disponível em
(http://www2.uol.com.br/vivermente/reportagens/fantasmas_do_final_de_ano.html).
Publicado em novembro/2014, consultado em novembro/2019.
Leia as asseverações feitas sobre o texto.
I. Há em comum entre o final de ano e as segundas e sextas-feiras o fato de marcarem, todos, um ponto de passagem de localização temporal indeterminada.
II. "Por isso tememos esse período - e também o esperamos ardentemente" - temos neste período a presença de uma contradição.
III. O esforço demandado para nos reunirmos e comemorarmos cada passagem de ano é recompensado pela felicidade que o momento propicia, permitindo que o ato anual de repetir e elaborar supere nossa angústia, às vezes crônica, outras vezes aguda.
IV. Os discursos repetidos nas reuniões e festas de Natal fazem com que possamos reconstruir narrativamente vivências passadas hábeis à superação de uma experiência-problema.
Podemos considerar correto o afirmado em:
- uma asseveração apenas.
- duas asseverações apenas.
- três asseverações apenas.
- todas as asseverações apresentadas.
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Gabarito
A
Comentário do professor
II está correta porque o texto descreve claramente a coexistência de afetos opostos no final do ano, o que caracteriza uma contradição emocional.
O autor afirma que nessa época "convivem dois sentimentos opostos" e coloca explicitamente a ideia de temor junto com a expectativa intensa. A frase que evidencia isso é a referência à convivência de sentimentos contraditórios e à passagem: algo já se faz presente, mas ainda não vigora plenamente, seguida da ideia de que se teme o período e, ao mesmo tempo, se espera por ele ardentemente.
Assim, a proposição reconhece corretamente a ambivalência descrita no texto: sentimentos contrários coexistem e geram a sensação paradoxal destacada pelo autor.
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