Questão FC552628
A FATIA ESTRANGEIRA DO IDIOMA Está o português ameaçado? Está nosso idioma em decadência? Está corrompendo-se, desagregando-se? Essas inquietações não são novas, elas ocorreram em
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBAM · 2019
A FATIA ESTRANGEIRA DO IDIOMA
Está o português ameaçado? Está nosso idioma em decadência? Está corrompendo-se, desagregando-se? Essas inquietações não são novas, elas ocorreram em muitas épocas da nossa história. Quais são as ameaças à língua, segundo esse discurso? São duas: de um lado, os falares populares e, de outro, os empréstimos de palavras estrangeiras, os chamados estrangeirismos.
Segundo os que temem a decadência do idioma, os falares populares ameaçam, porque neles, dentre outros aspectos, não se observam as normas padrão gramaticais que regem o chamado falar culto. Por exemplo, diz-se “eu amo ela” em lugar de “eu a amo”; “haviam muitas senhoras na sala” em lugar de “havia muitas senhoras na sala”: “a menina que os olhos dela são azuis esteve aqui” em lugar de “a menina cujos olhos são azuis esteve aqui”; “eu lhe adoro” em lugar de “eu a adoro”; “entre eu e ela não há mais nada” em lugar de “entre mim e ela não há mais nada”; “por favor, pegue esse livro pra mim ler” em lugar de “por favor, pegue esse livro para eu ler.
Já os empréstimos estrangeiros ameaçariam a língua porque poderiam descaracterizá-la, imaginam os que temem a desagregação do idioma. Segundo eles, os estrangeirismos, principalmente provenientes da língua inglesa atualmente, são desnecessários porque existem correspondentes perfeitos em português. Não é verdade. Quando um estrangeirismo vem para a língua, ele entra no sistema lexical (o conjunto de palavras de um idioma) e inscreve-se numa rede de correlações de sentido que dá a ele um valor específico. Assim, delivery não é igual a entrega em domicílio”, pois aquela palavra é a entrega em domicílio daqueles produtos que, tradicionalmente, não eram entregues em casa, como, por exemplo, comida pronta. Brother não é “irmão”, mas “amigo”; book não traduz livro, mas um álbum de fotografias que modelos divulgam nas agências. Destaque-se, também, que certos estrangeirismos podem acabar conferindo status a quem os utiliza.
Apesar do que dizem os que têm medo da decadência do idioma, é preciso dizer que O português vai muito bem, não está decaindo, não está ameaçado de desagregação nem está corrompendo-se. Por quê? Uma língua viva não é estática. Ao contrário, ela varia de região para região, de uma faixa etária para outra, de um grupo social para outro, de uma situação de comunicação para outra. Dificilmente, um texto do século XIII será compreendido por um falante comum. A língua do século XIII será diferente da do século XXI, e isso ocorre porque a comunidade linguística vai tendo novas necessidades de comunicação. E, como se vê com a questão dos estrangeirismos, uma língua pode sofrer influência de outras línguas.
A língua é edificada por seus usuários, que procuram expressar sua maneira particular de ver O mundo, e é construída entre forças de manutenção e transgressão. A primeira tenta assegurar compreensão mútua; a segunda busca exprimir novas realidades e criar novas identidades. Isso é o que torna a língua viva. Isso não quer dizer que tudo valha em termos de linguagem. A questão do erro é um pouco mais complicada do que querem fazer crer os catastrofistas que acham que o português está em vias de descaracterizar-se ou mesmo de desaparecer.
JOSÉ LUÍS FIORIN Adaptado de Revista da Língua Portuguesa, nº 27, 2007.
A partir do que é exposto no 4º parágrafo, pode- se atribuir a seguinte característica às línguas:
- normatividade
- impessoalidade
- atemporalidade
- heterogeneidade
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Gabarito
D
Comentário do professor
Heterogeneidade refere-se à coexistência de formas e usos diversos dentro de uma mesma língua. O 4º parágrafo explicita essa característica ao afirmar que o português varia "de região para região, de uma faixa etária para outra, de um grupo social para outro, de uma situação de comunicação para outra" e ao ressaltar as mudanças ao longo do tempo.
Essa variação inclui diferenças geográficas, geracionais e sociais, além de incorporações vindas de outras línguas. O autor mostra que tais variações são naturais numa língua viva, que se transforma conforme as necessidades comunicativas dos falantes.
Portanto, a melhor palavra para qualificar a língua, segundo o trecho, é heterogeneidade, pois captura a diversidade interna e a dinâmica de mudança descritas pelo autor.
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