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Questão FC552634

Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não fala

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBAM · 2016

Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não falarei do desamparo que finamente me aperta os dedos na garganta. Não citarei o sentimento peculiar aos que têm propensão para o desengano e, mais do que nunca, ao crepúsculo, sentem-se traídos e ultrajados sem motivo. Não mais me referirei a estados de alma que nada contêm além de um vazio cinzento e interminável, um abismo de sombra e de abstrato, onde a tristeza rumina o seu cadáver.

Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos, como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo; choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras nada significam senão o prazer de proferi-las e achá-las bem achadas, não para que exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades. Mas sobretudo vivendo por conta própria.

Foi um ato irresponsável confiar-me a mim mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi. Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a imagem quebrada, e cem vezes traída.

Otto Lara Resende, texto publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, edição de 5/10/02,

disponível em [http://www.releituras.com/o/resende_balanco. asp].

No primeiro parágrafo do texto, Otto Lara Resende:

  1. reconhece que o desamparo o atingiu.
  2. propõe-se a debater o sofrimento peculiar daqueles que têm propensão para o desengano.
  3. admite compreender melhor a tristeza que por vezes o assombra, ao proclamá-la ao mundo.
  4. rejeita discussões sobre estados de alma que representem algo mais do que um "vazio cinzento e interminável".
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Gabarito

A

Comentário do professor

No primeiro parágrafo, o autor admite vivenciar o desamparo. A própria frase "Não falarei do desamparo que finamente me aperta os dedos na garganta" revela que esse sentimento o atinge: embora declare que não o exporá, descreve uma sensação intensa e sufocante.

Trata‑se de figura que confirma a experiência interior; a negação de falar não anula a constatação do estado afetivo. Em suma, o enunciado não evita a confissão: Otto Lara Resende reconhece que o desamparo o atingiu, expressando-o em imagem corporal que evidencia seu impacto.

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