Questão FC552635
Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não fala
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBAM · 2016
Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não falarei do desamparo que finamente me aperta os dedos na garganta. Não citarei o sentimento peculiar aos que têm propensão para o desengano e, mais do que nunca, ao crepúsculo, sentem-se traídos e ultrajados sem motivo. Não mais me referirei a estados de alma que nada contêm além de um vazio cinzento e interminável, um abismo de sombra e de abstrato, onde a tristeza rumina o seu cadáver.
Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos, como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo; choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras nada significam senão o prazer de proferi-las e achá-las bem achadas, não para que exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades. Mas sobretudo vivendo por conta própria.
Foi um ato irresponsável confiar-me a mim mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi. Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a imagem quebrada, e cem vezes traída.
Otto Lara Resende, texto publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, edição de 5/10/02,
disponível em [http://www.releituras.com/o/resende_balanco. asp].
No último parágrafo, inferimos que o autor:
- antevê de maneira fatalista a jornada que lhe resta cumprir.
- lamenta o fato de não haver confiado mais em si.
- reconhece-se como senhor inquestionável de seu destino.
- evoca as lembranças de um passado venturoso como forma de auxiliá-lo a debelar a paralisia que assola o seu presente.
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Gabarito
A
Comentário do professor
Na frase final, o autor expressa uma visão claramente fatalista do futuro ao afirmar: "Calculadamente percorro o caminho da fatalidade". A palavra calculadamente indica que ele não crê em reversões espontâneas, mas que caminha de maneira consciente rumo a um desfecho já marcado.
Imagens como “abismos espreitam” e “a imagem quebrada, e cem vezes traída” reforçam a sensação de inevitabilidade e repetição do sofrimento. A construção revela aceitação resignada, não esperança de mudança.
Assim, o trecho transmite que o eu lírico antevê, com pessimismo e convicção, a jornada que ainda lhe resta cumprir, vendo-a como rota predestinada e perigosa.
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