Questão FC552646
O EVANGELHO DA CRIAÇÃO Peço desculpas ao leitor desde já por cometer o pecado (se não capital, ao menos venial) de misturar ciência e religião nesta coluna, mas me parece inevitáve
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBAM · 2016
O EVANGELHO DA CRIAÇÃO
Peço desculpas ao leitor desde já por cometer o pecado (se não capital, ao menos venial) de misturar ciência e religião nesta coluna, mas me parece inevitável fazê-lo depois da última semana. Afinal de contas, por incrível que pareça, um dos resumos mais completos e fáceis para entender o que os cientistas descobriram sobre a atual crise ambiental foi feito por um papa.
Irônico? Só parcialmente. Para começo de conversa, as caricaturas históricas sobre a suposta guerra incessante da Igreja Católica contra a ciência (com os personagens de sempre, como Giordano Bruno e Galileu no elenco) não resistem a um exame mais aprofundado. Não é mera coincidência que tanto o pai da genética moderna quanto um dos artífices da teoria do Big Bang tenham sido sacerdotes. E bons assessores científicos nunca faltaram aos papas. A Pontifícia Academia de Ciências, sediada no Vaticano, tem raízes tão antigas quanto o próprio Galileu e tem gente como o físico Stephen Hawking (ateu, assim como vários outros membros) em seus quadros atuais.
Portanto, não surpreende que Francisco seja capaz de explicar os riscos da mudança climática, da acidificação dos oceanos ou da perda de biodiversidade em sua mais nova encíclica, "Laudato Si". A verdadeira força da carta papal, no entanto, talvez venha de seus trechos menos comentados, justamente aqueles que são capazes de chegar aonde a ciência não alcança.
De fato, existem virtudes especificamente científicas, honestidade intelectual, a disposição desapiedada de seguir os fatos até onde eles nos levarem, a humildade de reconhecer que quase todo conhecimento sobre o mundo é provisório. O que a ciência não consegue fazer, no entanto, é construir uma bússola moral, um "norte" para noções de certo e errado exclusivamente baseado em fatos e na razão. Para isso, é preciso decidir quais são os valores centrais da vida.
Nesse ponto, ''Laudato Si" é um esforço magnífico de interpretar a tradição judaico-cristã de um jeito mais generoso e menos predatório. Francisco começa com o Gênesis e seus dois relatos da criação do mundo (sim, são dois relatos diferentes, e o papa reconhece essa diferença).
A argumentação do pontífice argentino demonstra que, mais do que relatos factuais sobre um Adão e uma Eva históricos, essas narrativas que abrem a Bíblia propõem uma visão harmônica do relacionamento entre o homem e o resto das formas de vida e abordam as consequências desastrosas que surgem quando essa harmonia (bem como a harmonia entre o homem e Deus) é destruída.
É óbvio que é questão da fé aceitar que a ordem e a complexidade da vida, produzidas pela evolução, também testemunham o amor divino. Mas quem abraça essa visão dificilmente ficará indiferente ao apelo de Francisco pela dignidade de todos os seres vivos. Como na parábola de Jesus, é de minúsculas sementes de mostarda que às vezes brotam as maiores mudanças.
Compilado de artigo de Reinaldo José Lopes, jornal Folha de São Paulo, edição de 21/6/15.
O autor avalia que a suposta guerra incessante da Igreja Católica com a ciência não resiste a um exame mais aprofundado, pois:
- os papas sempre careceram de bons assessores científicos.
- personagens como Giordano Bruno e Galileu deixaram como legado veementes defesas ao papel da Igreja junto à comunidade científica.
- grandes expoentes da ciência foram clérigos.
- a Pontifícia Academia de Ciências, sediada no Vaticano, rejeita personalidades como o fisico Stephen Hawking pelo fato de ele ser ateu.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
A alternativa C está correta porque o autor fundamenta sua avaliação apontando que houve grandes expoentes da ciência que eram sacerdotes. Como o texto afirma em destaque, "Não é mera coincidência que tanto o pai da genética moderna quanto um dos artífices da teoria do Big Bang tenham sido sacerdotes".
Ao citar figuras como Mendel e Lemaître, o autor mostra que a relação entre Igreja e ciência nem sempre foi conflituosa; pelo contrário, alguns dos responsáveis por avanços científicos de peso estiveram ligados à Igreja.
Além disso, a menção à Pontifícia Academia de Ciências e à presença de nomes como Stephen Hawking reforça a ideia de diálogo institucional entre fé e pesquisa científica.
Portanto, a presença de cientistas clericais no desenvolvimento de teorias fundamentais sustenta a conclusão do autor e justifica a escolha da alternativa C.
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