Questão FC552649
BALANÇO Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo?
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBAM · 2016
BALANÇO
Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não falarei do desamparo que finamente me aperta os dedos na garganta. Não citarei o sentimento peculiar aos que têm propensão para o desengano e, mais do que nunca, ao crepúsculo, sentem-se traídos e ultrajados sem motivo. Não mais me referirei a estados de alma que nada contêm além de um vazio cinzento e interminável, um abismo de sombra e de abstrato, onde a tristeza rumina o seu cadáver.
Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos, como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo; choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras nada significam senão o prazer de proferi-las e achá-las bem achadas, não para que exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades. Mas sobretudo vivendo por conta própria.
Foi um ato irresponsável confiar-me a mim mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi. Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a imagem quebrada, e cem vezes traída.
Oito Lara Resende, texto publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, edição de 5110102, disponível em {http:llwww.releituras.com/olresende_balanco.asp].
No primeiro parágrafo do texto, Otto Lara Resende:
- reconhece que o desamparo o atingiu.
- propõe-se a debater o sofrimento peculiar daqueles que têm propensão para o desengano.
- admite compreender melhor a tristeza que por vezes o assombra, ao proclamá-la ao mundo.
- rejeita discussões sobre estados de alma que representem algo mais do que um "vazio cinzento e interminável".
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Gabarito
A
Comentário do professor
Alternativa A está correta porque o autor, em primeira pessoa, admite a experiência do sentimento referido. A frase “Não falarei do desamparo que finamente me aperta os dedos na garganta.” não nega o fato; antes, revela que o desamparo existe e o alcança.
O uso do pronome “me” e do verbo “aperta” em presente transmite vivência imediata e impacto físico da emoção. Mesmo negando que irá falar sobre isso, o enunciador reconhece internamente o estado afetivo.
Portanto, a leitura adequada é a de que o eu-lírico foi atingido pelo desamparo, o qual é descrito com imagens corpóreas que confirmam sua ocorrência.
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