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Questão FC552650

BALANÇO Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo?

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBAM · 2016

BALANÇO 

Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não falarei do desamparo que finamente me aperta os dedos na garganta. Não citarei o sentimento peculiar aos que têm propensão para o desengano e, mais do que nunca, ao crepúsculo, sentem-se traídos e ultrajados sem motivo. Não mais me referirei a estados de alma que nada contêm além de um vazio cinzento e interminável, um abismo de sombra e de abstrato, onde a tristeza rumina o seu cadáver. 

Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos, como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo; choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras nada significam senão o prazer de proferi-las e achá-las bem achadas, não para que exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades. Mas sobretudo vivendo por conta própria. 

Foi um ato irresponsável confiar-me a mim mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi. Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a imagem quebrada, e cem vezes traída. 

Oito Lara Resende, texto publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, edição de 5110102, disponível em {http:llwww.releituras.com/olresende_balanco.asp].

No último parágrafo do texto inferimos que o autor: 

  1. antevê de maneira fatalista a jornada que lhe resta cumprir
  2. lamenta o fato de não haver confiado mais em si.
  3. reconhece-se como senhor inquestionável de seu destino.
  4. evoca as lembranças de um passado venturoso como forma de auxiliá-lo a debelar a paralisia que assola o seu presente.
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Gabarito

A

Comentário do professor

O último parágrafo revela claramente uma visão de futuro já traçado e inelutável por parte do eu lírico.

“Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam…”

A expressão calculadamente mostra consciência do percurso e caminho da fatalidade aponta para algo predeterminado. A imagem dos abismos que espreitam reforça a ideia de perigo inevitável e consequente derrota.

Além disso, frases como “Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço” indicam perda de controle e aceitação resignada do que virá.

Portanto, a leitura correta é que o autor antevê de maneira fatalista a jornada que lhe resta cumprir, combinando previsão consciente com sentimento de destino inevitável.

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