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Questão FC552661

Uso minha carteirinha para o que chamam de medicina preventiva, fazendo jus à mensalidade que tenho pago por medo de precisar usar o que não poderei pagar. Eles bem sabem o quanto

Interpretação de Textos (Compreensão)

IBAM · 2015

O que é que houve?

Resolvi fazer um check-up. Havia tempo que não fazia e o redondo número de minha idade vinha ultimamente chamando a minha atenção para a cadeirinha do plano de saúde que carrego na carteira. Não tinha nenhum sintoma. Era apenas uma checagem para não vir a ter nenhum sintoma.

Entrei na sala para o primeiro exame:

— O que é que houve? — me perguntou o doutor.

A pergunta me pegou de surpresa. Fiquei envergonhada. Tive medo de parecer hipocondríaca.

— Nada. Apenas rotina.

O exame foi feito. Tudo normal. Saí da sala aliviada por minha ausência de manchas, mas um tanto constrangida por mobilizar a atenção daquele médico que poderia estar se dedicando a outros abdomens, que, doentes, esperam por suas imagens em filas gigantescas pelos hospitais da cidade.

Segui para o próximo. O laboratório parecia um shopping. Gente circulando, o café lotado, televisões ligadas, pessoas concentradas em seus celulares e revistas, parecendo esbanjar saúde. Entrei na sala e, mais uma vez, veio a pergunta:

— O que é que houve?

Parecia que eles tinham combinado. Tive vontade de sair correndo dali, cantando e dançando pra celebrar minha saúde. Não o fiz. Que Deus me livrasse, mas, àquela altura, eu também já queria ver se tinha alguma coisa. Mais uma vez, e com a graça de Deus, não tinha nada.

Saí do laboratório sentindo um alívio desconfortável e entrei no táxi pensando numa melhor maneira de responder à tal pergunta.

— O que é que houve, doutor? Tenho a sorte de poder pagar um bom plano de saúde. Por isso, acabo achando normal usar todo este equipamento e estes médicos bem formados para investigarem no meu abdômen a eventual possibilidade de eu vir a ter o sintoma que não tenho.

Uso minha carteirinha para o que chamam de medicina preventiva, fazendo jus à mensalidade que tenho pago por medo de precisar usar o que não poderei pagar. Eles bem sabem o quanto fico feliz em pagar mais do que uso porque obviamente me oferecem um produto que não quero precisar usar. De certa maneira, me dão a bênção de perder o que paguei. E, assim, sem nem sequer me dar conta, me vingo minimamente, fazendo exames de rotina enquanto outras pessoas morrem nas filas dos hospitais. É bem esquisito, não é, doutor?

(autoria: Denise Fraga, colunista do jornal Folha de São Paulo,

texto retirado do site: http://www 1. folha. uol. com. br/colunas/denisefraga/2015/ Data: 20/09/2015)

Podemos inferir que o texto da autora:

  1. incentiva a população sobre a importância de um check up de saúde anual ou semestral.
  2. evidencia a forma como o paciente é sempre questionado pelos médicos ao apresentar suas queixas de saúde.
  3. apoia os planos de saúde e ressalta a comodidade no atendimento durante as consultas.
  4. critica a abordagem médica perante exames rotineiros de precaução.
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Gabarito

D

Comentário do professor

A autora critica a postura médica frente a exames de precaução ao destacar a reação dos profissionais quando o paciente não traz queixa. A repetição da pergunta "O que é que houve?" expõe uma expectativa de doença, causando constrangimento à narradora.

A expressão "parecia que eles tinham combinado" e o desejo de celebrar a própria saúde tornam evidente o caráter incomum, para os médicos, de consultas preventivas. O relato revela estranhamento diante dessa rotina.

No desabafo no táxi, a narradora problematiza a utilização do plano para a medicina preventiva, apontando a contradição entre pagar por cuidado e sentir-se culpada por usá‑lo enquanto outros esperam por atendimento.

O tom irônico e reflexivo sustenta a crítica central: tratar prevenção como anormal demonstra uma falha de abordagem profissional frente ao cuidado médico.

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