Questão FC552674
TEXTO: UMA MANHÃ RARA NA BIBLIOTECA Nas últimas duas décadas tenho frequentado algumas bibliotecas famosas em busca de fontes para meus livros. Nada, porém, se comparou à sensação
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBAM · 2014
TEXTO: UMA MANHÃ RARA NA BIBLIOTECA
Nas últimas duas décadas tenho frequentado algumas bibliotecas famosas em busca de fontes para meus livros. Nada, porém, se comparou à sensação de cruzar o portão daquela casa da rua Princesa Isabel, no bairro do Brooklin, em São Paulo. Frequentei a Biblioteca Mindlin uma dezena de vezes no final de 2006, um ano antes da publicação do meu primeiro livro, 1808. Minhas visitas eram sempre pela manhã. A biblioteca estava situada nos fundos, junto ao muro coberto de heras – uma construção moderna, de linhas discretas, em dois andares, sombreada por uma jabuticabeira. Ao abrir a porta, sentia-se o cheiro suave e inconfundível dos livros antigos.
Lá dentro imperava um silêncio religioso, quebrado de vez em quando pela voz das “três graças”, como Mindlin se referia às três mulheres que guardavam sua biblioteca. Cristina Antunes era responsável pela catalogação. Rosana Gonçalves respondia pelo acervo de periódicos e de fotografias. Elisa Nasarian cuidava dos arquivos de terceiros, da correspondência e da agenda de Mindlin.
Em uma daquelas visitas, sentei-me à mesa situada ao pé da escada que levava ao segundo andar. Cristina me trouxe um raríssimo livro de 1808, escrito por Manuel Vieira da Silva, médico e conselheiro particular de D. João VI. Entre as folhas amareladas pelo tempo, um bilhete ajudava a entender o valor da obra: “Primeiro tratado de Medicina publicado no Brasil: de grande valor bibliográfico”. Era uma anotação de Rubens Borba de Moraes, parceiro de quarenta anos de Mindlin na arte de colecionar. Na estante situada à minha esquerda havia um quadro com uma dedicatória: “Guita para José como prova de muito amor”. Era o projeto arquitetônico da biblioteca, que Mindlin ganhara da mulher, Guita, de aniversário, em 1983. (...)
Às 10h, ouviam-se passos leves descendo a escada, um ritual que se repetia todos os dias. Aos 92 anos, lúcido e sempre bem-humorado, o senhor chegava para mais uma jornada de trabalho. (...) As “graças” eram leitoras vorazes e estavam sempre bem informadas sobre os lançamentos do mercado editorial. Ao contratar suas colaboradoras, Mindlin fazia uma única exigência: que lessem muito, o tempo todo.
Em 2006, míope e vítima de uma deformação na retina, o maior bibliófilo do Brasil já não conseguia ler sozinho. Mas continuava devorando livros. Elas se revezavam na tarefa diária de ler em voz alta para ele. A leitura daquela manhã foi Equador, romance histórico do jornalista
português Miguel Sousa Tavares. A cena era tocante: sentado no canto do sofá, imóvel, de olhos fechados, o corpo franzino, as mãos postas sobre os joelhos, Mindlin sorvia cada frase e cada palavra da voz de Cristina Antunes, que preenchia o silêncio da biblioteca. A sensação de prazer no seu rosto era indisfarçável – como se aquele fosse o último, o único, o melhor de todos os oito mil livros que dizia ter lido na vida.
Mindlin morreu em fevereiro de 2010, aos 95 anos. Um de seus últimos e sempre grandiosos gestos foi doar o tesouro bibliográfico para a Universidade de São Paulo. É um dos centros de pesquisa mais modernos do Brasil, com todo o acervo digitalizado e disponível pela internet. A tecnologia facilitará muito a vida dos futuros pesquisadores, mas dificilmente reproduzirá a experiência de adentrar naquele santuário enquanto seu criador ainda estava vivo. É ela que levo para sempre na memória. Laurentino Gomes
Adaptado de oglobo.globo.com, 07/09/2014.
O texto lido é uma narrativa na qual estão inseridos alguns trechos descritivos.
A palavra destacada que expressa um ponto de vista particular do autor em relação à descrição feita está presente em:
- Na estante situada à minha esquerda havia um quadro com uma dedicatória: “Guita para José como prova de muito amor”.
- Em 2006, míope e vítima de uma deformação na retina, o maior bibliófilo do Brasil já não conseguia ler sozinho.
- A cena era tocante: sentado no canto do sofá, imóvel, de olhos fechados, o corpo franzino, as mãos postas sobre os joelhos,
- É um dos centros de pesquisa mais modernos do Brasil, com todo o acervo digitalizado e disponível pela internet.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
“Tocante” é um adjetivo avaliativo que transmite uma reação emocional do enunciador diante da cena descrita. Ao usá-lo, o autor não registra um dado verificável, mas expressa uma sensação.
Trata‑se de subjetividade: a palavra traduz a impressão pessoal do narrador sobre a imagem do senhor sentado, imóvel, de olhos fechados. Essa escolha léxica orienta o leitor a interpretar a cena com carga afetiva.
Logo após o termo, vêm os detalhes físicos que justificam a avaliação, mas são esses detalhes que motivam a opinião, não a substituem. A presença de feições como “corpo franzino” fundamenta a emoção, sem torná‑la objetiva.
Portanto, tocante evidencia um ponto de vista particular do autor, pois qualifica a cena segundo um juízo de valor e não apenas descreve fatos neutros.
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