Questão FC552682
VAMOS QUEIMAR OS DICIONÁRIOS Quando a gente pensa que já viu tudo, não viu. Faz algum tempo, dentro do horroroso politicamente correto que me parece tão incorreto, resolveram castr
Interpretação de Textos (Compreensão)
IBAM · 2012
VAMOS QUEIMAR OS DICIONÁRIOS
Quando a gente pensa que já viu tudo, não viu. Faz algum tempo, dentro do horroroso politicamente correto que me parece tão incorreto, resolveram castrar, limpar, arrumar livros de Monteiro Lobato, acusando-o de preconceito racial, pois criou, entre outras, a deliciosa personagem da cozinheira Tia Nastácia, que, junto com Emília e outros do Sítio do Picapau Amarelo, encheu de alegria minha infância.
Se formos atrás disso, boa parte da literatura mundial deve ser deletada ou "arrumada". Primeiro, vamos deletar a palavra "negro" quando se refere à raça e pessoas, embora tenhamos uma banda Raça Negra, grupos de teatro Negro e incontáveis oficinas, açougues, borracharias "do Negrão", como "do Alemão" "do Portuga" ou "do Turco". Vamos deletar as palavras. Quem sabe, vamos ficar mudos, porque ao mal-humorado essencial, e de alma pequena, qualquer uma pode ser motivo de escândalo. Depende da disposição com que acordou, ou do lado de onde sopram os ventos do seu próprio preconceito.
Embora meus antepassados tivessem vindo ao Brasil em 1825, portanto sendo eu de muitas gerações de brasileiros tão brasileiros quanto os de todas as demais origens, na escola havia também a turminha que nos achacava com refrãos como "Alemão batata come queijo com barata". Nem por isso nos odiamos, nos desprezamos. Eram coisas infantis, sem consistência. O que vemos hoje quer mudar a cara do país, ou da cultura do pais, e não tem nada de inocente.
Agora, de novo para meu incorrigível assombro, em um lugar deste vasto, belo, contraditório país que a gente tanto ama, desejam sustar a circulação do Dicionário Houaiss, porque no verbete "cigano" consta também o uso pejorativo - que, diga-se de passagem, não foi inventado por Houaiss, mas era ou é uso de alguns falantes brasileiros, que o autor meramente, como de sua obrigação, registrou. Ora, para tentar um empreendimento desse vulto, como suspender um dicionário de tal peso e envergadura, seria preciso um profundo e preciso conhecimento de lingüística, de lexicografia, uma formação sólida sobre o que são dicionários e como são feitos.
O dicionarista não inventa, não acusa nem elogia, deve ser imparcial - porque é apenas alguém que registra os fatos da língua, normalmente da língua-padrão, embora haja dicionários de dialetos, de gírias, de termos técnicos etc. Então, se no verbete "cigano" Houaiss colocou também os modos pejorativos como a palavra é ou foi empregada, criticá-lo por isso é uma tolice sem tamanho, que, se não cuidarmos, atingirá outros termos em outros dicionários, com esse olhar rancoroso. Vamos nos informar, antes de falar. Vamos estudar, antes de criticar. Vamos ver em que terreno estamos pisando, antes de atacar obras literárias ou científicas com o azedume de nossos preconceitos e da nossa pequenez ou implicâncias infundadas. Há coisas muito mais importantes a fazer neste país, como estimular o cuidado com a educação, melhorar o atendimento à saúde, promover e preservar a dignidade de todos nós.
Ou, numa mistura maligna de arrogância e ignorância - talvez simplesmente porque não temos nada melhor a fazer -, vamos deletar as palavras que nos incomodam, os costumes que nos irritam, as pessoas que nos atrapalham e, quem sabe, iniciar uma campanha de queima de livros.
Compilado de artigo de Lya Luft, Revista Veja, edição 2260, 14 de março de 2012.
Assinale a alternativa que apresenta uma ponderação compatível com o texto.
- A autora relata os achaques de que foi vítima quando criança com o intuito de ilustrar que as provocações aos “diferentes” não se restringem a apenas uma etnia.
- Lya Luft pondera que a palavra “negro" deve ser abolida do nosso dia a dia, pois é insultuosa à raça.
- Bandas batizadas de “Raça Negra”, grupos de teatro Negro, estabelecimentos comerciais que levam o nome “do Negrão” são estigmatizantes e reforçam o preconceito racial em nossa sociedade.
- O termo “cigano” assumiu contornos ofensivos a partir do momento em que passou a figurar no Dicionário Houaiss.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
A
Comentário do professor
A alternativa está correta porque a autora usa um episódio pessoal como recurso retórico de exemplificação. Ao lembrar dos apelidos de infância, como "Alemão batata come queijo com barata", ela mostra que as provocações por diferença atingem vários grupos, não apenas uma etnia.
Esse relato funciona como um argumento por experiência: partindo do vivido, a autora amplia a conclusão para o contexto social, sustentando sua crítica ao que considera um excesso de vigilância sobre palavras e obras. Assim, o exemplo pessoal confirma a ideia central de que o problema das ofensas é mais amplo e histórico.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em