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Questão FC552713

O garçom depositou cuidadosamente sobre a toalhinha alva dois copos cheios de água, dois guardanapos de papel, com florzinhas pálidas, e duas tacinhas de vidro, contendo, cada uma

Tipologia e Gênero Textual

IBAM · 2025

Texto 1

O SORVETE (trecho)

 

Estávamos absortos na contemplação ritual, misto de atenção a formas simbólicas, e de sonho em torno de ideias complexas que elas sugeriam – ali, diante daqueles pudins e daqueles roxos, amarelos, solferinos, verdes e róseos montículos de açúcar, geleia, ovo, frutas cristalizadas e invisível manteiga, quando um objeto vulgar, mas insólito no lugar onde se achava, me captou o interesse. Encostado a uma das três portas da confeitaria, do lado da calçada, um quadro-negro propunha-nos os seguintes dizeres em giz branco:

   

Hoje

Delicioso sorvete de

ABACAXI

Especialidade da casa

Hoje!

   

A inscrição emocionou-me intensamente, e dei conta a Joel da minha perturbação.

 

– Você está vendo?

 

Aparentemente, Joel não se deixara invadir pelo sortilégio das palavras. Sua superioridade!

 

– “Delicioso sorvete de abacaxi...” Nunca tomei disso.

 

– Eu também não, respondeu o fortíssimo Joel. Deve ser porcaria.

(...)

 

Fomos à confeitaria, templo misterioso onde se ocultava, na parte dos fundos, vedada por uma portinha de vidro opaco, a essência imanente à coisa ou palavra sorvete, e que meus pobres sentidos se aguçavam para interpretar.

 

O garçom depositou cuidadosamente sobre a toalhinha alva dois copos cheios de água, dois guardanapos de papel, com florzinhas pálidas, e duas tacinhas de vidro, contendo, cada uma delas, meia esfera de uma substância alva e brilhante... Crianças de cinco anos desprezarão minha narrativa; e já ouço um leitor maduro, que me interrompe: “Afinal este sujeito quer transformar o ato de tomar sorvete numa cena histórica?”. Leitor irritado, não é bem isso. Peço apenas que te debruces sobre esta mesa a cuja roda há dois meninos do mais longe sertão. Eles nunca haviam sentido na boca o frio de uma pedra de gelo, e, como todos os meninos de todos os países, se travavam conhecimento com uma coisa de que só conhecessem antes a representação gráfica ou oral, dela se aproximavam não raro atribuindo-lhe um valor mágico, às vezes divino, às vezes cruel, em desproporção com a realidade e mesmo fora dela; um valor independente da coisa e diretamente ligado a sugestões de som, cor, forma, calor, densidade, que as palavras despertam em nosso espírito maleável... Como posso reconstituir agora tudo o que nós criáramos, para nosso próprio uso, em torno da palavra sorvete, representativa de uma espécie rara de refresco, que às pequenas cidades não era dado conhecer; e cruzada bruscamente com a nossa velha e querida palavra abacaxi, ambas como que envoltas, por uma astúcia do gerente da confeitaria, na seda fina e lisa da palavra “delicioso”?

 

A carga de simpatia e sensualidade com que me atirei – nos atiramos – às meias esferas trazia talvez em si o germe da decepção que logo nos assaltou. O sorvete era detestável, de um frio doloroso, do qual se excluía toda lembrança de abacaxi, para só ficar a ideia de uma coisa ao mesmo tempo pétrea e frágil, agressiva aos dentes, e, mais para além deles, a uma região íntima do ser em que está o núcleo da personalidade, sua mais profunda capacidade de gozar e sofrer. Era uma dor universal o que ele espalhava, e tão rápida e difundida como se invadisse no mesmo segundo, por mil filamentos, toda a rede nervosa... Lágrimas subiram-me aos olhos. No rosto de Joel, também o sofrimento se desenhava.

ANDRADE, Carlos Drummond. Contos de aprendiz. São Paulo: Companhia das Letras, 2012

 

O narrador do texto pode ser classificado como narrador personagem, o que está textualmente evidenciado em:

  1. O garçom depositou cuidadosamente sobre a toalhinha alva dois copos cheios de água
  2. Eles nunca haviam sentido na boca o frio de uma pedra de gelo
  3. O sorvete era detestável
  4. Crianças de cinco anos desprezarão minha narrativa
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Gabarito

D

Comentário do professor

Narrador-personagem porque a frase apresenta claramente a voz do narrador como participante dos acontecimentos: o uso de minha revela 1ª pessoa e autopercepção, não uma narração externa.

Ao dizer "Crianças de cinco anos desprezarão minha narrativa" ele se refere diretamente ao próprio ato de narrar, o que indica envolvimento e avaliação pessoal sobre o que conta.

Esse traço evidencia subjetividade: o narrador não apenas relata fatos, mas comenta, julga e assume posição no texto, característica típica do narrador-personagem.

Portanto, a expressão é prova textual de que quem narra integra a história e tem voz e ponto de vista próprios.

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