Questão FC552851
BALANÇO Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo?
Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
IBAM · 2016
BALANÇO
Por que hei de agradar o rude sofrimento e mais rude torná-lo, na desesperança? Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo? Não falarei do desamparo que finamente me aperta os dedos na garganta. Não citarei o sentimento peculiar aos que têm propensão para o desengano e, mais do que nunca, ao crepúsculo, sentem-se traídos e ultrajados sem motivo. Não mais me referirei a estados de alma que nada contêm além de um vazio cinzento e interminável, um abismo de sombra e de abstrato, onde a tristeza rumina o seu cadáver.
Todos os gestos seriam inúteis. Nada salva e tudo nos perde e atraiçoa. O temor sustenta minhas interrogações e de repente me sinto só, perdidamente só e anterior a todos, como se ninguém mais houvesse. Tudo desaparece na refração das águas da memória. Vejo as imagens deformadas, mas que persistem, fantasmas íntimos. Rio e já não entendo; choro e me dilacero lentamente no tempo em que tudo está pesadamente mergulhado. Não grito porque o hábito se forma e o pudor defende. Conheço e entendo. Algumas vezes adivinho, mas não devasso. O que sabe deve calar-se para não ferir. Se digo, as palavras nada significam senão o prazer de proferi-las e achá-las bem achadas, não para que exprimam, mas simples jogo colorido que diverte. Não proporei normas, nem direi o que abomino. Deu-nos Deus a palavra para melhor silenciar. No inarticulado, me descubro um homem, com um nome, certos hábitos, fisionomia, alguns cacoetes e muitas possibilidades. Mas sobretudo vivendo por conta própria.
Foi um ato irresponsável confiar-me a mim mesmo. Meu destino gira nos meus dedos. Não me pertenço e nem me encontro. O tormento da lembrança, como cãibra, paralisa os gestos e sobrepõe ao que é o que já foi. Calculadamente percorro o caminho da fatalidade, onde os abismos espreitam e aguardam a imagem quebrada, e cem vezes traída.
Oito Lara Resende, texto publicado originalmente no jornal Folha de S. Paulo, edição de 5110102, disponível em {http:llwww.releituras.com/olresende_balanco.asp].
Leia os períodos a seguir.
I. "Por que proclamar a tristeza inútil diante das coisas que secretamente e melhor compreendo?"
II. "Não citarei o sentimento peculiar aos que têm propensão para o desengano".
III. "Não mais me referirei a estados de alma".
IV. "Mas sobretudo vivendo por conta própria".
Analisando-se os períodos acima sob a ótica da gramática normativa, é válido asseverar que:
- observamos, em I, o uso impróprio da conjunção explicativa, que deveria ter sido grafada circunflexo na vogal "e". ..
- em II ocorreu concordância verbal inadequada.
- no item III, a próclise foi empregada erroneamente, no caso, melhor seria o uso da ênclise.
- em IV o advérbio deveria ter sido intercalado por virgulas, pois denota ênfase.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
D
Comentário do professor
Sobretudo funciona aqui como advérbio de ênfase com sentido de especialmente/principalmente. Quando um termo tem função de realçar ou limitar a oração, ele assume caráter parentético e deve ser separado por vírgulas para marcar essa interrupção do fluxo verbal.
No período original, a leitura mais clara e adequada é: "Mas, sobretudo, vivendo por conta própria." As vírgulas isolam o advérbio, indicando que ele acrescenta uma ressalva ou destaque à ideia principal.
Sem a pontuação, o advérbio se integra ao grupo verbal de maneira ambígua, prejudicando a ênfase pretendida. Portanto, a norma recomenda a intercalação por vírgulas quando sobretudo é usado com valor enfatizador.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em