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Questão FC558827

TEXTO 1 Ponciá Vicêncio deitou-se na cama imunda ao lado do homem e de barriga para cima ficou com o olhar encontrando o nada I). Veio-lhe a imagem de porcos no chiqueiro que comem

Morfologia

CEV UECE · 2025

TEXTO 1

Ponciá Vicêncio deitou-se na cama imunda ao lado do homem e de barriga para cima ficou com o olhar encontrando o nada I). Veio-lhe a imagem de porcos no chiqueiro que comem e dormem para serem sacrificados um dia. Seria isto vida, meu Deus? Os dias passavam, estava cansada, fraca para viver, mas coragem para morrer, também não tinha ainda. O homem gostava de dizer que ela era pancada da ideia. Seria? Seria! Às vezes, se sentia, mesmo, como se a sua cabeça fosse um grande vazio, repleto de nada e de nada II).

 

Quando Ponciá Vicêncio resolveu sair do povoado onde nascera, a decisão chegou forte e repentina. Estava cansada de tudo ali. De trabalhar o barro com a mãe, de ir e vir às terras dos brancos e voltar de mãos vazias. De ver a terra dos negros coberta de plantações, cuidadas pelas mulheres e crianças, pois os homens gastavam a vida trabalhando nas terras dos senhores, e depois a maior parte das colheitas ser entregue aos coronéis. Cansada da luta insana, sem glória, a que todos se entregavam para amanhecer cada dia mais pobres, enquanto alguns conseguiam enriquecer-se a todo o dia. Ela acreditava que poderia traçar outros caminhos, inventar uma vida nova. E avançando sobre o futuro, Ponciá partiu no trem do outro dia, pois tão cedo a máquina não voltaria ao povoado.

 

Nem tempo de se despedir do irmão teve. E agora, ali deitada de olhos arregalados, penetrados no nada III), perguntava-se se valera a pena ter deixado a sua terra. O que acontecera com os sonhos tão certos de uma vida melhor? Não eram somente sonhos, eram certezas! Certezas que haviam sido esvaziadas no momento em que perdera o contato com os seus. E agora feito morta-viva, vivia.

EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio, 2003. p. 32-33.

 

Sobre o termo destacado nos trechos: “ficou com o olhar encontrando o nada; “repleto de nada e de nada” e “ali deitada de olhos arregalados, penetrados no nada”, é correto afirmar que

  1. se apresentam como substantivos, uma vez que a narradora individualiza o termo para exprimir o sentimento de desolação.
  2. se referem a manifestações de pronome indefinido, porque há distinção de usos intencionais do sentimento expresso pela narradora.
  3. são adjetivos, pois denotam qualidades do sentimento vivenciado pela narradora.
  4. são advérbios negativos, porque enfatizam o estado da narradora diante do sentimento de tristeza.
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Gabarito

A

Comentário do professor

Resposta correta: a alternativa indica que nada aparece como substantivo/substantivado nas ocorrências, pois a narradora o trata como nome de uma realidade , o vazio, a ausência.

Sintaticamente há evidências: em "penetrados no nada" aparece com artigo (no = em + o), em "repleto de nada" ocupa o núcleo de complemento introduzido por preposição, e em "olhar encontrando o nada" funciona como objeto direto nominalizado. Essas posições são típicas de substantivos.

Semanticamente, nada designa um conceito (o não-existente, o vácuo) que a narradora individualiza para exprimir desolação. Por isso assume valor de palavra substantivada, nomeando o estado psicológico presente no texto.

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