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Questão FC558837

TEXTO 4 [...] Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabian

Morfologia

CEV UECE · 2018

TEXTO 4

 

[...]

 

Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.

 

Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.

 

Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.

 

A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do outro peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.

 

Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.

 

Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.

 

RAMOS, Graciliano. Vidas secas, 82ª ed. Rio de Janeiro: Record. 2001. p. 85-91.

 

Do ponto de vista estilístico, o uso da forma no diminutivo das palavras criaturinha e cabecinha expressa o sentido de

  1. afetuosidade.
  2. pequenez.
  3. ironia.
  4. desprezo.
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Gabarito

A

Comentário do professor

O uso do diminutivo em criaturinha e cabecinha indica claramente a ideia de afetuosidade. Em português, além de marcar tamanho, o diminutivo frequentemente transmite carinho, ternura e proximidade emocional.

No trecho, essas formas atenuadas revelam o olhar compassivo e protetor sobre Baleia, acentuando a relação íntima entre o animal e os moradores. As imagens de aconchego e do desejo de descanso tornam o diminutivo um recurso para humanizar e envolver afetivamente o leitor.

Além disso, diante do quadro de sofrimento do animal, o diminutivo suaviza a cena e intensifica o sentimento de compaixão, tornando palpável o vínculo emotivo presente no contexto narrativo.

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