Questão FC558873
A quem a maternidade atrapalha?
Morfologia
CEV UECE · 2024
Texto
A quem a maternidade atrapalha?
Ações afirmativas, inclusive na ciência, são fundamentais para corrigir desigualdades
Leticia de Oliveira - Professora da Universidade Federal Fluminense; Parent in Science
Fernanda Stanisçuaski - Professora da Universidade Federal do Rio Grande do Sul; Parent in Science
Patrícia Valim - Professora do Departamento de História da Universidade Federal da Bahia (UFBA);
Rede Brasileira de Mulheres Cientistas
Nesta semana, o presidente do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq), Ricardo Galvão, afirmou em um evento que o movimento Parent In Science "atrapalha muito". O professor declarou que o movimento atrapalha porque, supostamente, teria sugerido que as bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq sejam avaliadas de maneira separada para homens e mulheres. Em nota divulgada nas nossas redes sociais, esclarecemos que nunca fizemos tal sugestão ao CNPq.
O Parent in Science, uma organização internacionalmente reconhecida e premiada, tem como objetivo principal destacar e abordar os desafios enfrentados por mães na comunidade acadêmica.
Relembrando a polêmica recente envolvendo o CNPq, é curioso e emblemático que Galvão tenha usado a mesma palavra que o parecerista do conselho usou para responder ao pedido da bolsa de produtividade da pesquisadora Maria Carlotto, da Universidade Federal do ABC, dizendo que suas gestações "atrapalharam" sua carreira científica.
Mas a quem a maternidade atrapalha, de fato? O movimento Parent in Science tem mostrado com dados que a parentalidade impacta a carreira especialmente de mulheres. Entretanto, o que de fato atrapalha é a falta de políticas públicas que apoiem as mães na academia e fora dela. Precisamos de creches, salas de acolhimento e amamentação, divisão igualitária nos cuidados com crianças e idosos e tarefas domésticas. E, não menos importante, urge diminuir a discriminação e o preconceito contra mães nos ambientes acadêmicos.
O professor fala ainda que as mulheres não precisam de ações "paternalistas", uma vez que estas impediriam o reconhecimento de seus méritos como cientistas. As ações paternalistas as quais o professor se refere são ações afirmativas, importantíssimas para corrigir desigualdades históricas e sociais. Às mulheres são atribuídas as principais funções do cuidado com crianças e idosos. Esta é uma questão central que gera a necessidade de políticas de compensação, tais como editais específicos para cientistas mulheres. Portanto, embora não tenhamos sugerido formalmente ao CNPq, entendemos que linhas específicas de financiamento para mulheres e grupos sub-representados são essenciais.
O próprio CNPq tem editais importantes para mulheres negras, por exemplo. Esse edital seria paternalista? As mulheres negras teriam menos mérito? Sabemos que não, muito pelo contrário. É uma reparação mínima referente a uma injustiça histórica. No caso das bolsas de produtividade em pesquisa do CNPq, é preciso que um grupo dedicado de pessoas avalie as desigualdades de gênero, raça, áreas do conhecimento e distribuição geográfica para propor soluções. Não há solução fácil. Mas há a necessidade inquestionável de mudança.
Reiteramos nosso desejo de contribuir para a construção de um ambiente acadêmico mais inclusivo, justo e diverso. Um ambiente que não atrapalhe mais a maternidade de ninguém.
Disponível em: https://www1.folha.uol.com.br/opiniao/2024/02/
No trecho “Mas a quem a maternidade atrapalha, de fato?”, a expressão destacada pode ser corretamente interpretada como uma marca de
- adversidade, pois contrapõe situações no texto.
- interatividade com o leitor, estabelecendo um contato.
- negação, pois está opondo elementos do texto.
- alternância de informações presentes no texto.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Na frase "Mas a quem a maternidade atrapalha, de fato?", o termo mas funciona como um recurso de interação discursiva.
Ele introduz uma pergunta retórica que não busca informação factual, mas sim provocar reflexão e aproximar o leitor do debate.
Ao lançar essa interrogação, o autor estabelece interatividade com o leitor, chamando-o a considerar evidências e posições apresentadas anteriormente.
Além disso, o uso de mas marca uma mudança de ênfase na argumentação, orientando o foco do texto para a problemática das políticas públicas e das discriminações enfrentadas.
Assim, o fragmento cria contato discursivo e convida à participação intelectual do destinatário.
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