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A caminho do brejo A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia Cora Rónai Um país não vai para o brejo de um momento para o outro , como se viesse andando na estradinha, qual va

Morfologia

CEV UECE · 2018

A caminho do brejo

A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia

Cora Rónai

Um país não vai para o brejo de um momento para o outro , como se viesse andando na estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela e, de repente, saísse do barro firme e embrenhasse pela lama. Um país vai para o brejo aos poucos, construindo a sua desgraça ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui, um tanto de demagogia ali, safadeza e impunidade de mãos dadas. Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela inércia e pela audácia dos canalhas.

(...)

Um país vai para o brejo quando políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas , e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.

Um país vai para o brejo quando representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém , e isso é aceito como normal por todo mundo.

Um país vai para o brejo quando as suas escolas e os seus hospitais públicos são igualmente ruins, e quando os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia.

Um país vai para o brejo quando não protege os seus cidadãos, não paga aos seus servidores, esfola quem tem contracheque e dá isenção fiscal a quem não precisa.

Um país vai para o brejo quando os seus poderosos têm direito a foro privilegiado. Um país vai para o brejo quando se divide, e quando os seus habitantes passam a se odiar uns aos outros; um país vai para o brejo quando despenca nos índices de educação, mas a sua população nem repara porque está muito ocupada se ofendendo mutuamente nas redes sociais.

O Brasil caminha firme em direção ao brejo há muitas e muitas luas, mas um passo decisivo nessa direção foi dado quando Juscelino construiu Brasília, aquela farra para as empreiteiras, e quando parlamentares e funcionários públicos em geral ganharam privilégios inéditos em troca do “sacrifício” da mudança para lá.

Brasília criou um fosso entre a nomenclatura e os cidadãos comuns. A elite mora com a elite, convive com a elite e janta com a elite, sem vista para o Brasil. Os tempos épicos do faroeste acabaram há décadas, mas há os privilégios que foram mantidos, ampliados e replicados pelos estados. De todas as heranças malditas que nos deixaram, essa é a pior de todas.

(...)

Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/acaminho-

do-brejo-20606929#ixzz5H47dDVl5.

Acesso em 31/05/2018. Adaptado.

A expressão conectiva destacada em “...os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia” apresenta valor semântico de

  1. condição.
  2. finalidade.
  3. alternância.
  4. concessão.
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Gabarito

Certo

Comentário do professor

A expressão correlativa seja... seja indica alternância, ou seja, apresenta duas possibilidades equivalentes que justificam o mesmo fato.

No trecho, as duas orações introduzidas por seja funcionam como elementos coordenados e homogêneos: ambas apontam causas possíveis para a perda de segurança. A construção poderia ser reescrita por ou... ou sem alteração do sentido, o que reforça seu caráter alternativo.

Em termos sintáticos, seja... seja pertence ao grupo das conjunções coordenativas alternativas e serve para relacionar possibilidades distintas que concorrem para a mesma conclusão expressa na oração principal.

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