Questão FC558908
A caminho do brejo A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia Cora Rónai Um país não vai para o brejo de um momento para o outro , como se viesse andando na estradinha, qual va
Semântica
CEV UECE · 2018
A caminho do brejo
A sociedade dá de ombros, vencida pela inércia
Cora Rónai
Um país não vai para o brejo de um momento para o outro , como se viesse andando na estradinha, qual vaca, cruzasse uma cancela e, de repente, saísse do barro firme e embrenhasse pela lama. Um país vai para o brejo aos poucos, construindo a sua desgraça ponto por ponto, um tanto de corrupção aqui, um tanto de demagogia ali, safadeza e impunidade de mãos dadas. Há sinais constantes de perigo, há abundantes evidências de crime por toda a parte, mas a sociedade dá de ombros, vencida pela inércia e pela audácia dos canalhas.
(...)
Um país vai para o brejo quando políticos lutam por cargos em secretarias e ministérios não porque tenham qualquer relação com a área, mas porque secretarias e ministérios têm verbas , e isso é noticiado como fato corriqueiro da vida pública.
Um país vai para o brejo quando representantes do povo deixam de ser povo assim que são eleitos, quando se criam castas intocáveis no serviço público, quando esses brâmanes acreditam que não precisam prestar contas a ninguém , e isso é aceito como normal por todo mundo.
Um país vai para o brejo quando as suas escolas e os seus hospitais públicos são igualmente ruins, e quando os seus cidadãos perdem a segurança para andar nas ruas, seja por medo de bandido, seja por medo de polícia.
Um país vai para o brejo quando não protege os seus cidadãos, não paga aos seus servidores, esfola quem tem contracheque e dá isenção fiscal a quem não precisa.
Um país vai para o brejo quando os seus poderosos têm direito a foro privilegiado. Um país vai para o brejo quando se divide, e quando os seus habitantes passam a se odiar uns aos outros; um país vai para o brejo quando despenca nos índices de educação, mas a sua população nem repara porque está muito ocupada se ofendendo mutuamente nas redes sociais.
O Brasil caminha firme em direção ao brejo há muitas e muitas luas, mas um passo decisivo nessa direção foi dado quando Juscelino construiu Brasília, aquela farra para as empreiteiras, e quando parlamentares e funcionários públicos em geral ganharam privilégios inéditos em troca do “sacrifício” da mudança para lá.
Brasília criou um fosso entre a nomenclatura e os cidadãos comuns. A elite mora com a elite, convive com a elite e janta com a elite, sem vista para o Brasil. Os tempos épicos do faroeste acabaram há décadas, mas há os privilégios que foram mantidos, ampliados e replicados pelos estados. De todas as heranças malditas que nos deixaram, essa é a pior de todas.
(...)
Fonte: https://oglobo.globo.com/cultura/acaminho-
do-brejo-20606929#ixzz5H47dDVl5.
Acesso em 31/05/2018. Adaptado.
A respeito da expressão popular “ir para o brejo” presente no texto, é correto afirmar que
- foi usada de forma inadequada, pois a expressão é “a vaca foi pro brejo”, e não “um país vai para o brejo”.
- faz referência ao sentido original da expressão, quando em tempos difíceis, de seca, o gado parte em direção aos brejos em busca de água.
- foi empregada nos sentidos denotativo (significado próprio, literal) e conotativo (figurado).
- contrariando a ideia defendida no texto, diz-se que “a vaca foi pro brejo” quando alguma coisa má acontece ou quando algo dá errado.
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Gabarito
Certo
Comentário do professor
Denotativo: a expressão "ir para o brejo" tem sentido literal de entrar no brejo, no lamaçal, imagem concreta que aparece no texto com a vaca que atravessa a cancela e se embrenha na lama. Esse é o sentido próprio e imediato da expressão.
Conotativo: o autor a usa também em sentido figurado para qualificar o processo de degradação política e social do país, indicando ruína, decadência e mau funcionamento das instituições ao longo do tempo. As enumerações sobre corrupção, impunidade, privilégios e queda da educação exemplificam esse sentido.
Efeito retórico: a combinação do imagem literal com o sentido figurado intensifica a crítica, tornando mais vívida e concreta a ideia abstrata de declínio nacional.
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