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Questão FC558910

TEXTO Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena, os livros me deram casa e comida. Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo; em pé, fazia parede, deitado

Semântica

CEV UECE · 2023

TEXTO

Pra mim, livro é vida; desde que eu era muito pequena, os livros me deram casa e comida.

 

Foi assim: eu brincava de construtora, livro era tijolo; em pé, fazia parede, deitado, fazia degrau de escada; inclinado, encostava num outro e fazia telhado. E quando a casinha ficava pronta eu me espremia lá dentro pra brincar de morar em livro.

 

De casa em casa eu fui descobrindo o mundo (de tanto olhar pras paredes). Primeiro, olhando desenhos; depois, decifrando palavras.

 

Fui crescendo; e derrubei telhados com a cabeça. Mas fui pegando intimidade com as palavras. E quanto mais íntima a gente ficava, menos eu ia me lembrando de consertar o telhado ou de construir novas casas. Só por causa de uma razão: o livro agora alimentava a minha imaginação.

 

Todo dia a minha imaginação comia, comia e comia; e de barriga assim toda cheia, me levava pra morar no mundo inteiro: iglu, cabana, palácio, arranha-céu, era só escolher e pronto, o livro me dava.

 

Foi assim que, devagarinho, me habituei com essa troca tão gostosa que no meu jeito de ver as coisas é a troca da própria vida; quanto mais eu buscava no livro, mais ele me dava.

 

Mas, como a gente tem mania de sempre querer mais, eu cismei um dia de alargar a troca: comecei a fabricar tijolo pra em algum lugar uma criança juntar com outros, e levantar a casa onde ela vai morar.

 

BOJUNGA, Lygia. Livro: um encontro com Lygia Bojunga. 2. Ed. Rio de Janeiro: Agir, 1998.

No trecho “Todo dia a minha imaginação comia, comia e comia; e de barriga assim toda cheia, me levava pra morar no mundo inteiro: iglu, cabana, palácio, arranha-céu, era só escolher e pronto, o livro me dava”, a expressão em destaque é exemplo de

  1. ambiguidade como problema de construção textual.
  2. pobreza vocabular reducionista de significado.
  3. ao verbo comer em sentido literal.
  4. polissemia permitido pela expansão de sentido.
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Gabarito

D

Comentário do professor

Polissemia acontece quando uma mesma palavra assume sentidos diferentes. No trecho, o verbo comer aparece com um sentido não literal: não se refere à ingestão de alimentos, mas a uma ação mental.


Aqui "a minha imaginação comia" indica que a imaginação se alimentava, absorvia conteúdos, era nutrida pelas leituras. Esse uso desloca o sentido original de comer para um plano metafórico, mantendo relação semântica com a ideia de consumo.


Essa mudança é exemplo de expansão de sentido, processo que amplia o alcance semântico de uma palavra e é permitido pelo uso contextual e figurado da língua.


Portanto, a expressão ilustra a polissemia decorrente da expansão de sentido: o verbo preserva traços do significado primário enquanto passa a nomear uma ação imaginativa.

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