Questão FC558929
TEXTO 4 [...] Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabian
Semântica
CEV UECE · 2018
TEXTO 4
[...]
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do outro peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.
Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas, 82ª ed. Rio de Janeiro: Record. 2001. p. 85-91.
Ao utilizar o termo dormir no enunciado “Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás”, o escritor cria
- um sinônimo para o termo descansar.
- um antônimo para criar o sentido contrário ao de morte.
- uma metáfora para corresponder, por analogia, ao sentido de vida sobrenatural.
- um eufemismo para suavizar traços semânticos negativos do termo morrer.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Dormir funciona aqui como eufemismo para morrer. A expressão suaviza a ideia brutal da morte, tornando-a linguisticamente menos direta.
O contexto confirma essa leitura: a descrição do sofrimento de Baleia, a insensibilidade parcial e a doença indicam um quadro terminal. A frase “Acordaria feliz, num mundo cheio de preás” atua como imagem pós-morte, não como sono literal.
Como recurso semântico, o eufemismo atenua traços negativos ligados à morte, preserva a delicadeza narrativa e favorece a compaixão do leitor diante da criatura. Assim, o autor evita termo chocante e transmite serenidade diante do fim.
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