Questão FC558995
Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?
Regência
CEV UECE · 2025
Mila
Era pouco maior do que minha mão: por isso eu precisei das duas para segurá-la, 13 anos atrás. E, como eu não tinha muito jeito, encostei-a ao peito para que ela não caísse, simples apoio nessa primeira vez. Gostei desse calor e acredito que ela também. Dias depois, quando abriu os olhinhos, olhou-me fundamente: escolheu-me para dono. Pior: me aceitou.
Foram 13 anos de chamego e encanto. Dormimos muitas noites juntos, a patinha dela em cima do meu ombro. Tinha medo de vento. O que fazer contra o vento?
Amá-la , foi a resposta e também acredito que ela entendeu isso. Formamos, ela e eu, uma dupla dinâmica contra as ciladas que se armam. E também contra aqueles que não aceitam os que se amam. Quando meu pai morreu, ela se chegou, solidária, encostou sua cabeça em meus joelhos, não exigiu a minha festa, não queria disputar espaço, ser maior do que a minha tristeza.
Tendo-a ao meu lado, eu perdi o medo do mundo e do vento. E ela teve uma ninhada de nove filhotes, escolhi uma de suas filhinhas e nossa dupla ficou mais dupla porque passamos a ser três. E passeávamos pela Lagoa, com a idade ela adquiriu “fumos fidalgos”, como o Dom Casmurro, de Machado de Assis. Era uma lady, uma rainha de Sabá numa liteira inundada de sol e transportada por súditos imaginários.
No sábado, olhando-me nos olhos, com seus olhinhos cor de mel, bonita como nunca, mais que amada de todas, deixou que eu a beijasse chorando. Talvez ela tenha compreendido. Bem maior do que minha mão, bem maior do que o meu peito, levei-a até o fim.
Eu me considerava um profissional decente. Até semana passada, houvesse o que houvesse, procurava cumprir o dever dentro de minhas limitações. Não foi possível chegar ao gabinete onde, quietinha, deitada a meus pés, esperava que eu acabasse a crônica para ficar com ela.
Até o último momento, olhou para mim, me escolhendo e me aceitando. Levei-a, em meus braços, apoiada em meu peito. Apertei-a com força, sabendo que ela seria maior do que a saudade.
CONY, Carlos Heitor. Mila. In: SANTOS, Joaquim Ferreira dos (org.). As Cem Melhores Crônicas Brasileiras. Rio de Janeiro: Objetiva, 2007. p. 271–272.
Assinale a opção em que o emprego do sinal indicativo de crase está correto.
- O homem ficou cara à cara com seu novo animal de estimação.
- Ele escreveu à lápis um bonito texto sobre animais.
- Não estava disposto à desistir da vida de escritor.
- O homem encostou o animal à face em um gesto carinhoso.
Mostrar resposta e comentário
Gabarito
D
Comentário do professor
Crase aparece quando há a junção da preposição a exigida pelo verbo com o artigo definido feminino a que acompanha o substantivo. Em "O homem encostou o animal à face", o verbo encostar exige a preposição a e face pede o artigo feminino a, resultando na forma contraída à.
Um teste prático: substitua face por um equivalente masculino, por exemplo rosto; a frase vira "encostou o animal ao rosto", mostrando que há, de fato, a combinação de preposição + artigo. Assim, retorna-se à forma feminina correta à face.
Reforce: crase ocorre com substantivos femininos que admitem artigo e quando há preposição exigida pela regência verbal.
Conteúdo do catálogo FC Concursos · Atualizado em