Questão FC559008
TEXTO 1 Ponciá Vicêncio deitou-se na cama imunda ao lado do homem e de barriga para cima ficou com o olhar encontrando o nada. Veio-lhe a imagem de porcos no chiqueiro que comem e
Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
CEV UECE · 2025
TEXTO 1
Ponciá Vicêncio deitou-se na cama imunda ao lado do homem e de barriga para cima ficou com o olhar encontrando o nada. Veio-lhe a imagem de porcos no chiqueiro que comem e dormem para serem sacrificados um dia. Seria isto vida, meu Deus? Os dias passavam, estava cansada, fraca para viver, mas coragem para morrer, também não tinha ainda. O homem gostava de dizer que ela era pancada da ideia. Seria? Seria! Às vezes, se sentia, mesmo, como se a sua cabeça fosse um grande vazio, repleto de nada e de nada.
Quando Ponciá Vicêncio resolveu sair do povoado onde nascera, a decisão chegou forte e repentina. Estava cansada de tudo ali. De trabalhar o barro com a mãe, de ir e vir às terras dos brancos e voltar de mãos vazias. De ver a terra dos negros coberta de plantações, cuidadas pelas mulheres e crianças, pois os homens gastavam a vida trabalhando nas terras dos senhores, e depois a maior parte das colheitas ser entregue aos coronéis. Cansada da luta insana, sem glória, a que todos se entregavam para amanhecer cada dia mais pobres, enquanto alguns conseguiam enriquecer-se a todo o dia. Ela acreditava que poderia traçar outros caminhos, inventar uma vida nova. E avançando sobre o futuro, Ponciá partiu no trem do outro dia, pois tão cedo a máquina não voltaria ao povoado.
Nem tempo de se despedir do irmão teve. E agora, ali deitada de olhos arregalados, penetrados no nada, perguntava-se se valera a pena ter deixado a sua terra. O que acontecera com os sonhos tão certos de uma vida melhor? Não eram somente sonhos, eram certezas! Certezas que haviam sido esvaziadas no momento em que perdera o contato com os seus. E agora feito morta-viva, vivia.
EVARISTO, Conceição. Ponciá Vicêncio, 2003. p. 32-33.
Na passagem: “Estava cansada de tudo ali. De trabalhar o barro com a mãe, de ir e vir às terras dos brancos e voltar de mãos vazias. De ver a terra dos negros coberta de plantações, cuidadas pelas mulheres e crianças, pois os homens gastavam a vida trabalhando nas terras dos senhores, e depois a maior parte das colheitas ser entregue aos coronéis.” evidencia-se
- coesão referencial catafórica, porque o termo “a vida” é apresentado inicialmente, antecipando o referente.
- coesão referencial anafórica por meio da elipse verbal da expressão “estava cansada”, uma vez que apenas os complementos são textualizados em seguida.
- substituição lexical, porque o enunciador trabalha com sinônimos, hiperônimos e hipônimos para retomar um mesmo referente no texto, o objeto do cansaço.
- dêixis, uma vez que a referência situacional que aponta para o contexto, a exemplo do aqui e agora, são aspectos fundantes para a construção do trecho.
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Gabarito
B
Comentário do professor
Coesão referencial anafórica ocorre quando um elemento remete a outro já presente no texto. Na frase, esse elemento é a oração com “Estava cansada”, que funciona como âncora semântica inicial.
As orações seguintes iniciadas por “De trabalhar o barro…”, “de ir e vir…” e “De ver a terra…” não repetem o predicado. Há a omissão deliberada do verbo/oração principal, ou seja, uma elipse verbal.
Essa elipse evita repetição e liga cada complemento à expressão anterior, mantendo a continuidade do sentido. Assim, os itens listados são complementos anafóricos de “Estava cansada”, comprovando a coesão referencial por elipse verbal.
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