Questão FC559013
TEXTO 1 Com licença poética Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira. Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada
Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
CEV UECE · 2020
TEXTO 1
Com licença poética
Quando nasci um anjo esbelto, desses que tocam trombeta, anunciou: vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher, esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem, sem precisar mentir.
Não tão feia que não possa casar, acho o Rio de Janeiro uma beleza e ora sim, ora não, creio em parto sem dorB.
Mas, o que sinto escrevo. Cumpro a sina. Inauguro linhagens, fundo reinos , dor não é amargura.
Minha tristezaB não tem pedigree, já a minha vontade de alegriaB, sua raiz vai ao meu avô.
Vai ser coxo na vida, é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
PRADO, Adélia Prado. Com Licença Poética. In: PRADO, Adélia. Adélia Prado: Poesia reunida. 6. ed. São Paulo: Siciliano, 1996. p. 11.
A sequência textual marca-se sintaticamente por articuladores, ou seja, elementos responsáveis pela coesão do texto que contribuem para a construção do sentido. Atente para o que se diz a seguir sobre a funcionalidade dos articuladores destacados nos versos do texto 1.
I. Em “ora sim, ora não, creio em parto sem dor” (linha 10), o uso de conjunção coordenativa de alternância marca a incerteza do eu lírico.
II. Em “Mas, o que sinto escrevo” (linha 11), o emprego da conjunção temporal põe os elementos do texto ordenados entre si.
III. Em “já a minha vontade de alegria” (linha 15), o articulador destacado funciona, no poema, como um elemento adversativo, pois marca oposição à “Minha tristeza” (linha 14).
Acerca da funcionalidade dos articuladores acima destacados, é correto o que se afirma em
- I e II apenas.
- I e III apenas.
- II e III apenas.
- I, II e III.
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Gabarito
B
Comentário do professor
I e III apenas é correta porque os dois articuladores desempenham funções distintas de coesão e sentido no poema.
Em "ora... ora..." temos uma conjunção coordenativa de alternância que põe opções lado a lado e traduz a oscilação do eu lírico; a sequência sugere variação e dúvida, funcionando como marcador de alternância e de incerteza expressiva.
Em "já", o termo opera como articulador adversativo; ele contrapõe a ideia anterior sobre a tristeza sem pedigree à afirmação seguinte sobre a vontade de alegria e sua origem. Assim, "já" introduz contraste e realça a oposição entre as duas características.
Ambos, portanto, contribuem para a coerência e para a construção do sentido poético por meio de relações de alternância e de contraste.
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