Questão FC559036
TEXTO 4 [...] Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabian
Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
CEV UECE · 2018
TEXTO 4
[...]
Uma noite de inverno, gelada e nevoenta, cercava a criaturinha. Silêncio completo, nenhum sinal de vida nos arredores. O galo velho não cantava no poleiro, nem Fabiano roncava na cama de varas. Estes sons não interessavam Baleia, mas quando o galo batia as asas e Fabiano se virava, emanações familiares revelavam-lhe a presença deles. Agora parecia que a fazenda se tinha despovoado.
Baleia respirava depressa, a boca aberta, os queixos desgovernados, a língua pendente e insensível. Não sabia o que tinha sucedido. O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito.
Provavelmente estava na cozinha, entre as pedras que serviam de trempe. Antes de se deitar, sinhá Vitória retirava dali os carvões e a cinza, varria com um molho de vassourinha o chão queimado, e aquilo ficava um bom lugar para cachorro descansar. O calor afugentava as pulgas, a terra se amaciava. E, findos os cochilos, numerosos preás corriam e saltavam, um formigueiro de preás invadia a cozinha.
A tremura subia, deixava a barriga e chegava ao peito de Baleia. Do outro peito para trás era tudo insensibilidade e esquecimento. Mas o resto do corpo se arrepiava, espinhos de mandacaru penetravam na carne meio comida pela doença.
Baleia encostava a cabecinha fatigada na pedra. A pedra estava fria, certamente sinhá Vitória tinha deixado o fogo apagar-se muito cedo.
Baleia queria dormir. Acordaria feliz, num mundo cheio de preás. E lamberia as mãos de Fabiano, um Fabiano enorme. As crianças se espojariam com ela, rolariam com ela num pátio enorme, num chiqueiro enorme. O mundo ficaria todo cheio de preás, gordos, enormes.
RAMOS, Graciliano. Vidas secas, 82ª ed. Rio de Janeiro: Record. 2001. p. 85-91.
Os pronomes servem para criar uma cadeia de referência a elementos que são retomados ao longo do texto. Aplicando esta ideia ao excerto do romance de Vidas Secas, é correto afirmar que
- em “As crianças se espojariam com ela” , o pronome ela se refere à sinhá Vitória , mãe das crianças.
- no trecho “[...] emanações familiares revelavam-lhe a presença deles , o uso do pronome lhe faz referência à Baleia .
- no enunciado “O estrondo, a pancada que recebera no quarto e a viagem difícil no barreiro ao fim do pátio desvaneciam-se no seu espírito” , o pronome seu está se referindo a Fabiano .
- a forma pronominal deles retoma a expressão estes sons .
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Gabarito
B
Comentário do professor
Resposta: O pronome lhe em “emanações familiares revelavam-lhe a presença deles” refere-se a Baleia.
Gramaticalmente, lhe é um pronome oblíquo átono de terceira pessoa usado como complemento indireto, indicando a quem algo é revelado. No trecho, o verbo “revelar” pede complemento indireto quando se trata de “revelar a alguém”, portanto lhe marca o destinatário da revelação.
Contextualmente, a sequência imediata do excerto focaliza as sensações e percepções de Baleia (respiração, tremores, encostar a cabeça), o que confirma que as “emanações familiares” são apreendidas por ela. Assim, a coesão textual e a função sintática identificam Baleia como referente de lhe.
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