Questão FC559042
A casa José Paulo Paes Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas. Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio qu
Linguagem
CEV UECE · 2018
A casa
José Paulo Paes
Vendam logo esta casa, ela está cheia de fantasmas.
Na livraria, há um avô que faz cartões de boas-festas com corações de purpurina. Na tipografia, um tio que imprime avisos fúnebres e programas de circo. Na sala de visitas, um pai que lê romances policiais até o fim dos tempos. No quarto, uma mãe que está sempre parindo a última filha. Na sala de jantar, uma tia que lustra cuidadosamente o seu próprio caixão. Na copa, uma prima que passa a ferro todas as mortalhas da família. Na cozinha, uma avó que conta noite e dia histórias do outro mundo. No quintal, um preto velho que morreu na Guerra do Paraguai rachando lenha. E no telhado um menino medroso que espia todos eles; só que está vivo: trouxe-o até ali o pássaro dos sonhos. Deixem o menino dormir, mas vendam a casa, vendam-na depressa. Antes que ele acorde e se descubra também morto.
PAES, José Paulo. Prosas seguidas de Odes mínimas. São Paulo, Cia. das Letras, 1992.
Sobre o tom de linguagem empregado no poema de José Paulo Paes, é INCORRETO dizer que
- o poeta se utiliza de uma linguagem marcada por elementos oníricos que se assemelha a uma atmosfera de sonho.
- o autor traz ao poema um traço de afetividade, ao recuperar, por meio da memória, personagens de um mesmo círculo familiar.
- o texto poético apresenta-se com um tom saudosista quando resgata figuras do passado.
- a poesia reflete fortemente um tom satírico e irônico do autor ao zombar da ideia de que não há como escapar da morte.
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Gabarito
D
Comentário do professor
Está incorreto afirmar que o poema adota um tom satírico e irônico para zombar da ideia de inevitabilidade da morte. Não há no texto uma atitude de ridicularização dirigida a uma crença ou a figuras sociais; o eu poético não ironiza a morte, antes a torna onipresente e inquietante.
As imagens acumuladas (parentes que preparam caixões, mortalhas, contos do outro mundo) criam um clima macabro e onírico, com um humor tênue que não desarma a gravidade do tema. A ordem final, que pede para vender a casa antes que o menino descubra estar morto, revela medo e compaixão, não escárnio.
Portanto, o poema se aproxima mais de um tom melancólico e ameaçador, com pitadas de humor sombrio para intensificar a sensação de fatalidade, e não de sátira ou zombaria.
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