Questão FC559044
TEXTO 6 O Poeta da Roça Sou fio das mata, cantô da mão grosa Trabaio na roça, de inverno e de estio A minha chupana é tapada de barro Só fumo cigarro de paia de mio Sou poeta das b
Linguagem
CEV UECE · 2020
TEXTO 6
O Poeta da Roça
Sou fio das mata, cantô da mão grosa
Trabaio na roça, de inverno e de estio
A minha chupana é tapada de barro
Só fumo cigarro de paia de mio
Sou poeta das brenha, não faço o papé
De argum menestrê, ou errante cantô
Que veve vagando, com sua viola
Cantando, pachola, à percura de amô
Não tenho sabença, pois nunca estudei
Apenas eu seio o meu nome assiná
Meu pai, coitadinho! vivia sem cobre
E o fio do pobre não pode estudá
Meu verso rastero, singelo e sem graça
Não entra na praça, no rico salão
Meu verso só entra no campo da roça e
[dos eito
E às vezes, recordando feliz mocidade
Canto uma sodade que mora em meu peito.
[...]
Eu canto o mendigo de sujo farrapo,
Coberto de trapo e mochila na mão,
Que chora pedindo o socorro dos home,
E tomba de fome, sem casa e sem pão.
E assim, sem cobiça dos cofre luzente,
Eu vivo contente e feliz com a sorte,
Morando no campo, sem vê a cidade, Cantando as verdade das coisa do Norte.
Adaptada de ASSARÉ, Patativa do. Cante lá que eu canto cá: Filosofia de um trovador nordestino. 2. Ed. Petrópolis: Vozes, 1978.
Patativa do Assaré, apesar de ter inúmeros poemas publicados, não escrevia nenhum deles. Com habilidade inacreditável de memorização, o poeta decorava todos seus poemas. Todos os versos que hoje podemos ver são graças ao trabalho de outras pessoas que se empenharam em transcrever os poemas do poeta, seja ouvindo diretamente do poeta, seja através de gravações. Deste modo, sua poesia é fortemente marcada pela oralidade. No texto de Patativa do Assaré, aparecem expressões da fala popular como “Sou fio das mata, cantô da mão grosa” (linha 160), “Trabaio na roça, de inverno e de estio”, (linha 161) “Cantando, pachola, à percura de amô” (linha 167). Considerando este aspecto da poesia de Patativa do Assaré, atente para as seguintes afirmações:
I. Este tipo de linguagem revela, no texto, uma escrita de estilo coloquial marcada pelo uso consciente de palavras próprias da fala.
II. As expressões coloquiais utilizadas no texto revelam o lugar de onde veio o poeta e sua história, deixando claro que a poesia que produz é sobre as coisas simples da vida.
III. O emprego destes coloquialismos revela a cultura local em que o autor está inserido.
Está correto o que se afirma em
- I, II e III.
- I e III apenas.
- II e III apenas.
- I e II apenas.
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Gabarito
A
Comentário do professor
A escolha da alternativa A se justifica porque a poesia de Patativa do Assaré recria a fala popular e a oralidade, o que confirma a afirmação I. As grafias e invertências de pronúncia funcionam como reprodução consciente da linguagem coloquial, aproximando o texto da oralidade e do registro popular.
Essas marcas linguísticas também revelam o lugar de origem e a trajetória social do poeta, confirmando a afirmação II. O léxico rural, as imagens da roça e o tema das dificuldades do pobre denunciam que a poesia nasce e fala sobre as coisas simples da vida no campo.
Finalmente, o uso de regionalismos e traços dialetais evidencia uma cultura local específica, com saberes, valores e sentidos partilhados pela comunidade, o que valida a afirmação III.
Portanto, I, II e III são corretas, pois linguagem, origem e cultura aparecem estreitamente articuladas no texto.
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